Viver em pânico

Dia Internacional do Pânico: 18 de junho.

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Design © Laura Almeida Azevedo
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O [meu] pânico

Eu tinha 22 anos. Hoje, tenho 36. Era de noite e estava um breu profundo. Sempre tive medo de acidentes de carro. Medo dos que nos levam as pernas, os braços; dos que nos metem em cadeiras de rodas. Tínhamos ido passar férias em França. De carro. As longas viagens de carro queriam-se feitas de noite. Era quando havia menos trânsito. Uma viagem tão longa, uma noite tão escura, um cansaço tão grande e apenas uma faixa em cada sentido. Conseguia ver, pelo canto do olho, que os olhos dele se fechavam enquanto ele conduzia. Estava cansado. Mas não o admitia. Lembro-me de contar os segundos. Um após o outro. E de empurrar os meus pés contra o chão do carro, como se tentasse travá-lo, nas muitas ultrapassagens em cima das curvas. Lembro-me da ansiedade a crescer no meu estômago e da incapacidade de me distanciar do medo.

E foi então que aconteceu: o descontrolo, a espiral. De repente, deixei de ouvir. Perdi a noção de tudo. Foi como se os meus olhos deixassem de conseguir focar o que quer que fosse. Os meus olhos e a minha atenção. Ali, naquele instante, passou a haver apenas um silêncio aterrador que me permitia ouvir cada batimento do meu coração. O coração batia tanto que parecia rebentar no peito: tum-tum, tum-tum, tum-tum. As minhas mãos a ficarem completamente encharcadas, de repente. Enquanto hiperventilava, o meu corpo começava a ficar dormente. Gradualmente. Ia perder os sentidos. Estava tão assustada, que fiquei ali, paralisada, apenas a contar os segundos que faltavam para morrer. Tinha a certeza de que estava a morrer. Era isso que me dizia em pensamento: «Vou morrer. Estou a morrer. Vou morrer.» Era agora, ali. Ia morrer.

Quando o meu namorado parou o carro na primeira berma que encontrou, abri a porta repentinamente e quis fugir dali. Mas a adrenalina era muito mais rápida do que as minhas pernas naquele momento. Quando meti os pés na terra e me levantei do banco, percebi que não tinha força. Agarrei-me, de repente, à porta para não cair. Tremia de alto a baixo. E, agora, chorava, desorientada, assustada e a tentar muito lentamente voltar a mim.

Uns anos mais tarde, na televisão, ouvi uma mulher descrever os sintomas de uma doença qualquer. Só, quando percebi que todos estes sintomas tinham sido meus, ouvi com atenção o nome: ataque de pânico. Um transtorno de ansiedade que atinge a sua intensidade máxima em 5 a 10 minutos. E que dispara um “alerta” no nosso organismo, como se estivéssemos em perigo iminente. Mesmo não estando.

O Transtorno do Pânico é cerca de duas vezes mais comum nas mulheres e, normalmente, os primeiros episódios ocorrem no final da adolescência ou no início da vida adulta.

Aqui, na plataforma Desafio-te, são quatro os desafiados que, além de mim, partilham as suas histórias.

Fotografia © Carlos Diniz | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Carlos Diniz | Design © Laura Almeida Azevedo

O Carlos Diniz tem 47 anos e foi há 27 que teve o primeiro ataque de pânico. Era de noite e regressava a casa após as aulas. Aguardava pelo autocarro, quando sentiu uma espécie de tontura: «Fiquei assustado. O coração começou a disparar. Estava sozinho e não compreendi o que se estava a passar.» Entrou no autocarro com o coração aos pulos. Mas, como trabalhava durante o dia e estudava à noite, pensou que o que estava a sentir seria apenas cansaço.

Só mais tarde é que recorreu a acompanhamento especializado. Naquela época, no início dos anos 90, explica, «ir ao psicólogo era quase tabu. Pelo menos, para a minha família.»

Quase sempre, os seus episódios de pânico coincidem com as fases em que anda mais ansioso. Por exemplo: se tiver de mudar de casa, de trabalho ou se viver conflitos familiares. Para evitar estes episódios, evita as situações de maior stress. «Frequento lugares calmos. Estou com amigos. Procuro fazer actividades que me dão prazer (um hobby, por exemplo) e dormir um número de horas suficientes. Aprendi que os ataques de pânico são reacções químicas no cérebro. E, apesar de causarem sensações aterradoras e de descontrolo, são, sobretudo, um aviso do nosso corpo de que algo não está bem e de que é necessário parar e rever o nosso estilo de vida», diz.

No caso do Carlos, estes episódios de pânico surgem habitualmente após um período de «insónias frequentes». Quando acontecem, «é necessário parar, tomar medicação, descansar, fazer algo fora da rotina. E terapia. No meu caso, controlar a hipertensão», explica.

O medo, este medo que sente, é um «medo extremo irracional». E explica: «A sensação é a de que se está a ficar louco, ou de que se vai morrer ou ter um ataque cardíaco, um AVC.»

Fotografia © Júlia Domingues | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Júlia Domingues | Design © Laura Almeida Azevedo

Embora a Júlia acredite que «nem sempre associamos as primeiras experiências aos ataques de pânico», lembra-se que foi, mais ou menos, com 22 anos que sentiu o primeiro. Hoje, tem 38 anos.

«Viagem de Braga para Lisboa. Sozinha no carro. Queria muito fazer essa viagem. Seria a minha primeira viagem sozinha de mais de 400km. Sentia-me crescida. Adulta. Responsável», conta. Mas a sensação de liberdade durou pouco tempo: «A boca começou a secar, o coração a ir em excesso de velocidade e as mãos a escorregar do volante.» Depois, ficou tudo turvo. Parou na estação de serviço, fumou dois cigarros e ficou ali, a tentar perceber o que tinha acontecido. Regressou ao volante e não se recorda do resto do caminho até Lisboa. «Uma viagem que tinha tudo para ser memorável» transformou-se numa «experiência que preferia apagar da memória», garante.

Do momento exacto do pânico, lembra-se apenas que os pensamentos surgem em catadupa. «Só se pensa, em loop: O que é que está a acontecer comigo? Vai-me dar qualquer coisa e vou estatelar-me aqui no chão. E ficas ali, à espera, eternamente, que te dê qualquer coisa. E isso nunca acontece. E aquela sensação de perigo iminente não se vai embora.»

Ainda não teve coragem de procurar um médico para ser acompanhada. Porquê? «Porque talvez, como tens medo de ter medo, acabas por ser vitima de ti mesma. Não queres pensar nisso», responde.

«Há semanas em que nada acontece. E há dias que parecem semanas. Ainda hoje, passados estes anos todos, não faço ideia do que despoleta tudo isto. Normalmente, acontece quase sempre em momentos calmos. Do nada. É uma sensação iminente de desmaio. As pernas perdem a força. O coração pula descontroladamente. A saliva foge da boca. Os calafrios assaltam-te e roubam-te a temperatura do corpo. […] O pensamento foge. Dá lugar a perguntas sem fim. O que é isto? Vou cair. Estou a sentir-me mal. Estou a sentir-me mesmo mal. Sim, estou mesmo a sentir-me mal. E acabas por sentir mesmo», explica.

Apesar de, hoje em dia, ter um auto-controlo muito maior, «de pouco adianta», diz. «Quando estas situações acontecem, não é possível evitar. Até porque não sabes quando vão acontecer. Tornei-me numa pessoa muito mais calculista, no sentido de pensar, previamente, se poderei estar em determinado sitio ou situação de forma tranquila. Ainda não faço viagens de carro de longas distâncias, sozinha. E, mesmo quando estou acompanhada, conduzir não é uma situação totalmente confortável para mim.»

Fotografia © Nuno Correia | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Nuno Correia | Design © Laura Almeida Azevedo

Ao contrário de mim, do Carlos e da Júlia, o Nuno teve o seu primeiro ataque de pânico já mais tarde. Tinha 35 anos. Hoje, tem 37. E, por isso, explica que a sua relação com «o pânico é relativa». Mas que, ainda assim, alterou a sua forma de gerir o que o rodeia.

«Comecei a sentir suores frios repentinos. Estava em casa e senti-me mal. Lembro-me de que vomitei e senti o corpo letárgico, a tremer. O coração acelerou bastante. […] Foi muito desconfortável para mim. […] Pensei: OK, isto foi qualquer coisa que comi. Mas, depois, o batimento acelerou e comecei a sentir uma sensação estranha no corpo», conta.

Através de uma amiga, que trabalha num hospital, ficou a saber que o que sentiu terá sido um ataque de pânico. «Mais tarde, tive um problema cardíaco e, aprofundando o assunto, contei nas consultas o que aconteceu anteriormente. Aí, foi contabilizado esse acontecimento como o primeiro.» Por causa desse problema cardíaco, esteve hospitalizado e a situação estabilizou. «Estive com medicação diária até há bem pouco tempo atrás, para normalizar a arritmia cardíaca. Neste momento, tenho uma vida normal», acrescenta.

Fotografia © Sílvia Santos | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Sílvia Santos | Design © Laura Almeida Azevedo

Sílvia tem um medo incontrolável de abelhas, vespas e de alturas. E, por vezes, tem mesmo ataques de pânico, que a «petrificam». «Felizmente, são muito poucos e muito pontuais», diz. Tem 39 anos e não se lembra exatamente da primeira vez que sentiu este pânico.

Sabe apenas que, em criança, foi muitas vezes picada por abelhas. «A vez que me ficou na memória: devia ter os meus 4 anos e estava na Beira Alta com a minha mãe a vestir-me num dia de calor. Sem ninguém se aperceber, uma abelha entrou para dentro da minha camisola e a minha mãe, ao ajeitar-me a roupa, empurrou-a contra o meu peito», conta. A abelha picou-a. «A partir de então, evito contacto próximo com as ditas. E, se estão muitas e muito junto a mim, fico em pânico.»

Mais tarde, viveu um episódio inesquecível. «O que realmente me transtornou foi há cerca de uns 13 anos», conta. «Estava de férias no Algarve e fui até à ilha deserta de Faro, de mota de água, ter com familiares e amigos do meu namorado na altura. Nesse verão o mar subiu muito e destruiu os ninhos das vespas e estas andavam aos magotes por toda a praia. Mal me deparei com aquele cenário, comecei logo a sentir alguns dos sintomas de pânico. Mas, quando cinco vespas me poisam literalmente em cima, não aguentei e aí, sim, tive um ataque de pânico como nunca tinha tido», diz. Levantou-se, de repente. «Parecia eu que tinha molas de tão rápida que fui. Gritei, que é algo que não é usual em mim. E comecei a hiperventilar, a mexer-me sem nexo, a andar de um lado para o outro, sem saber muito bem o que fazia. […] Tinha o coração na boca. Mal conseguia respirar. Suores frios. Não conseguia pensar em nada.» Só conseguia pensar nas vespas, que «já pareciam maiores e mais medonhas do que, na realidade, eram. Há assim uma espécie de distorção da realidade e de pensamentos cíclicos, em loop.»

Rodeada por pessoas, sentiu-se constrangida com o sucedido. O namorado, que já sabia deste seu medo, «até se queria ir embora» para não a «ver a sofrer», conta. «As outras pessoas olhavam-me estranhamente, mas aceitavam e tentavam ajudar. Exceto duas delas que me olhavam como se fosse um E.T. Completamente parvo e sem propósito e até comentários de escárnio e maldizer fizeram. […] E só podíamos sair dali daí a umas horas, pois a maré tinha vazado muito e a mota de água não passava. Foi um dos piores dias da minha vida. Pensei que morria.»

«Como gosto de, em todas as situações, retirar sempre algo de positivo, esta experiência deu para ficar a gostar ainda mais do meu namorado e a valorizar tudo o que fez por mim. E o que me fez rir a bom rir foi que, no final do dia, mesmo antes de regressarmos a casa, eu não tinha sido picada e a senhora maldosa dos comentários agressivos foi picada. E  desencadeou uma boa reação alérgica, ficando com uma bolha enorme. Acho que as minhas gargalhadas se ouviram em toda a praia. Quem ri por último ri melhor.»

Não teve a sensação de morte iminente, mas, sim, um descontrolo excessivo, «despoletado por um medo muito grande e intrínseco», diz. Nunca sentiu necessidade de procurar ajuda, pois, como tem alguns conhecimentos de saúde, «sabia lidar com aquilo». «Como sempre me consegui controlar, aprendi a viver com esses medos e a superá-los quando assim tem de ser.»

Descreve o pânico que sentiu como ter a «cabeça a mil, com pensamentos repetitivos e em loop, só a pensar no que provoca o medo. Não se consegue raciocinar e entramos numa espécie de distorção da realidade, aumentando ainda mais o que nos fez desencadear o pânico. Coração a bombar, parece que sai do peito. Dificuldade em respirar e a hiperventilar. Suores frios. Pernas a ficarem estilo gelatina, sem força para nos suster e a abanar que nem varas verdes. Um nó na garganta. E uma vontade enorme de chorar.»

Design © Laura Almeida Azevedo
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A nossa mensagem para ti

Viver em pânico é avassalador. Não apenas pelo medo concreto sentido no momento: de se morrer, de se perder o controlo. Não apenas até pelo próprio medo de se voltar a sentir este medo. Mas também porque quem está de fora nem sempre o compreende. E essa distância, entre quem o sente e quem assiste, acaba por torná-lo num medo silencioso.

Por estes motivos, deixamos-te uma mensagem.

A ti, que vives o pânico:

«O pânico é gerado por nós mesmos. São mecanismos de defesa alterados e descontextualizados. E nós somos os maiores guardiões de nós. Por isso, continua a depender de nós libertarmo-nos do que nos faz mal. Seja através de ajuda médica, terapias convencionais ou não convencionais, ou até mesmo do auto-controlo que desenvolvemos e que fazemos o nosso maior aliado.» [Júlia]

«Procura ajuda. Procura fazer coisas que te dêem prazer, que te afastem da rotina. Medita. Faz exercício físico. Conversa com os teus amigos.» [Carlos]

A ti, que és o amigo, o familiar ou o colega que assiste:

«Sê compreensivo. Tenta acalmar a pessoa que sofre, mas sem desvalorizar as suas emoções. Ouve-a. E recomenda-lhe ajuda especializada.» [Carlos]

«Nunca menosprezes o que a pessoa está a sentir. Não somos todos iguais, mas todos merecemos respeito. Por isso, respeita o teu amigo. Fica ao seu lado. Sem ansiedade. Sereno. Podes até nem falar, mas mantém-te firme junto a ele. Respira com ele. Fá-lo recordar algo de bom ou de cómico, que o faça rir e sair daquele pensamento em loop. E reforça a ideia de que tudo vai passar. Sem grandes lamechices, mas sem agressividade.» [Silvia]

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LAURA ALMEIDA AZEVEDO, a desafiadora
37 anos. Uma dose saudável de loucura. Gosto por tudo o que é novo, diferente, ousado, criativo. Apaixonada por palavras, desenho e comunicação. Licenciada em Jornalismo. Designer gráfico, ilustradora e autora do livro e do blogue «Apetece(s)-me». Incapaz de viver sem a luz do sol, mas completamente rendida ao silêncio da madrugada. Viciada em música, chocolates e varandas. Fascinada por cidades, pessoas e emoções. Nunca diz que não a uma discussão construtiva: afinal, é a conversar que as pessoas se entendem. Em miúda, o seu jogo preferido era o Jogo da Verdade.