Impotência

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Design © Laura Almeida Azevedo
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Nunca estiveste tanto no meu pensamento como agora. Estás mesmo a pesar! Creio que isso terá uma razão. É a despedida. De um estado de adoração e admiração profundos para um estado de pena desta história, estar, subtil e inconscientemente, a passar.

Pena de mim e de ti, disto que tinha a nós de calhar.

De mim já estou a resolver. De tudo farei para me reconquistar, de novo em mim confiar e apostar. A casa das memórias limpar e arrumar. O apego, a mágoa e a desilusão, soltar.

Dar-me um carinho, como se estivesse eu própria ali na minha frente a contar-me silenciosamente a tristeza que me fizeste passar. Fecho os olhos e consigo ver a minha face triste, os olhos caídos e de onde ainda, de vez em quando, cai uma ou outra lágrima, ainda que esboce, ao mesmo tempo, um meio sorriso, que faz brilhar os olhos caídos. Sorriso de incredulidade. Pela coragem que tenho por tudo isto suportar. O teu fácil virar de costas, ignorares-me todo este tempo, evitares até comigo cruzar.

O pior ainda são os sonhos. Nesses não dá para travar ou inventar, não dá para os controlar. Apareces-me, sem aviso, cuidadoso comigo, a dar-me atenção, a querer conversar. Esqueces-te até das responsabilidades apenas para comigo ficar. Neles (os sonhos), recordas-me, mesmo sem quereres, ou eu, as partes boas. Não sabes, mas pedes-me, inexplicavelmente, para em ti não deixar de acreditar.

No mundo real, o telefonema veio passados três anos. Anónimo, mudo, seco. No meu horário de trabalho, nos teus minutinhos de lanche. Aposto que para o fazer nem deixaste de lanchar, porque, para ti, sempre tu próprio em primeiro lugar. Já eu… eu deixei tantas vezes de comer, de dormir, de saber onde estava ou para onde ia, de ver o horizonte… para apenas o imaginar.

Todos os locais que me recordam de ti ainda me fazem arrepiar. Todas as músicas que te estão inevitavelmente associadas me fazem bloquear. Inclusive, todos os portes físicos, parecidos com o teu, me fazem parar e olhar.

Que raio quiseste com aquele telefonema e com os outros que se seguiram, uns seis ou sete, sempre à mesma hora, limitados de tudo e sempre mudos?! Como não ter pena de ti por agires assim?!

Claro que muda não fiquei eu. Conforme pude, fui-te dizendo, como que para te sossegar: «Perdoo-te. Ando em terapia e vai passar.» Pura mentira porque disto ninguém me consegue sarar! Mas fi-lo, parvamente, a pensar ainda no teu bem-estar, nesse em primeiro lugar. E ainda te mandei recado para que escrevesses, se não conseguias falar… surgindo assim a resposta que nunca daria para imaginar: «Já não falo com ela, pelo que não entendo a razão de se manifestar!»

Mas, raio, eu ouvi-te e senti-te naqueles telefonemas a chorar, a fungar, a me desarmar! E só desejei te acalmar…

Sei que vou, ainda que entretida como puder, por ti toda a vida esperar. Não, não para te ter. Já não para a ti me dedicar. Apenas para te ouvir dizer «desculpa, querida, não ter podido amar-te». E que possamos por fim, com um meio sorriso nos nossos rostos certamente já cansados, isto tudo, a pena de ti e a pena de mim, a dois, lamentar.

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BÁRBARA MARCELO, a anónima
Toda ela é sentimento por diluir. Tem um trabalho comum, num qualquer escritório, faltando-lhe «o poder para limitar a linha intranquila e incansável do pensamento», que, tantas vezes, a leva a rabiscar. Gosta de pessoas simples, «com jeito cru e espontâneo». E da novidade da comida, da arte e dos encantos naturais, que encontra «neste passeio, sem destino, que é a vida». Tem um porto seguro. E adora a música e o mar. Aqui, entre nós: talvez, um dia destes, deixe de ser anónima.