Sabes, mãe, às vezes, apeteces-me

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Fotografia © Raquel Ferreira | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Raquel Ferreira | Design © Laura Almeida Azevedo

Sabes, mãe, às vezes, apetece-me voltar a ser criança. Apetece-me que me ponhas a mão na testa para veres se tenho febre ou que me faças sopa para curar as dores de barriga. Às vezes, apetece-me que me alises os cabelos e me faças carinhos no rosto. Às vezes, preferia trocar as conversas por telemóvel por um beijo momentâneo. Às vezes, queria não ter mais de trezentos quilómetros a separar-me de ti. Às vezes, preferia que me pudesses limpar as lágrimas quando choro e que pudesses sorrir ao pé de mim quando estou feliz. Às vezes, queria poder atravessar o ecrã do computador para poder sentir o conforto do teu colo. Às vezes, só queria poder dar-te a mão e ouvir-te dizer: vais conseguir.

Não, eu não queria que me fizesses o almoço ou me lavasses a roupa. Não, eu, às vezes, só queria ser criança e brincar contigo. Queria não conhecer as responsabilidades, não ter prazos para pagar as contas, não ter horários para cumprir. Às vezes, só queria ser a miúda de tranças, de calças cor de rosa e à boca de sino. Às vezes, só queria chorar por ter partido a perna da boneca.

Fiz as minhas escolhas e sou muito feliz com elas. Mas, sabes, mãe, às vezes, apeteces-me!

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RAQUEL FERREIRA, a engenheira
É de uma aldeia perdida no norte do país e ambiciona ser mestre em Engenharia Civil. No percurso, apaixonou-se pelas palavras e escreve. Sobre tudo. Sobre nada. Ainda não é tudo o que quer ser, mas luta todos os dias por isso.