O dia em que eu nasci e o dia em que tu morreste

A ti, pai

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Ilustração © Laura Almeida Azevedo
Ilustração © Laura Almeida Azevedo

Hoje é dia 16 de junho. O dia do meu aniversário. Seria motivo para festejar, certo? Mas não! Não, desde o dia 16 de junho de 2005, o dia em que partiste. A partir desse ano, o dia 16 de junho passou a ser o dia em que eu nasci e o dia em que tu morreste.

Passaram onze anos e ainda me custa sobreviver a este dia. Ainda me caem as lágrimas. E ainda continua a ser um misto de emoções, com as quais ainda não sei lidar!

Pai, hoje quero homenagear-te no Desafio-te! Porque um dos primeiros textos que escrevi foi um desabafo, no dia 23 de junho de 2005, e dizia assim:

«Faz hoje uma semana que eu fiz anos. Faz hoje uma semana que foste embora… sem te despedires. Porque não te fui ver? O único dia em que não te fui ver. E, agora, trago em mim um sentimento de arrependimento e de culpa. Estava precisamente a estudar esta merda de metais, tal como agora. Sinto-me tão triste. Devia ter ido ao hospital. Devia ter ido visitar-te. Devia ter estado sempre contigo. Até ao fim.

Não consigo imaginar o teu sofrimento. Não podias sequer falar o que sentias. Queria ter estado sempre contigo. Como podia imaginar que te ias embora? Esperava o dia em que voltarias para a nossa casa. Acreditava que irias ver a minha peça de teatro. Andava a ensaiá-la desde que foste para o hospital. Acreditava que estarias comigo quando terminasse a faculdade. Acreditava que, um dia, me levarias ao altar. Passaram sete meses e tu no hospital. Sempre acreditei na tua recuperação. Agora só me resta dor no coração, sofrimento e tristeza permanente, lágrimas infinitas e a última fotografia que te tirei no hospital.

Volta, pai. Quero-te aqui sempre! Preciso de ti. Ainda sou uma criança… Preciso do teu apoio e do teu carinho. Que faço eu sem ti, pai? Ainda penso que estás no hospital. Ainda voltei lá em modo automático. E, depois, foi o desespero de saber que não iria voltar a ver-te (…) Recordo-te e sinto-me triste. Recordo a tua voz, o teu andar, o teu sorriso, os teus gestos (…) Permanece o frio, sentido quando te beijei pela primeira vez, depois de partires. Gelado! Só me apeteceu aquecer-te, apertar-te entre os meus braços, para que pudesses voltar a abrir os olhos. E apenas quando te vi, iluminado pelos raios de sol que atravessavam as janelas, imóvel naquele caixão… soube que era o fim. Fecho os olhos e ainda vejo a tua expressão, ainda me lembro da luz e do cheiro da sala.

Apeteceu-me gritar, tal como agora. Apetece-me ir ter contigo. Desaparecer deste mundo (…) Desculpa, pai. Desculpa se não estava contigo, quando chegaste ao limite do teu sofrimento. Não me vou perdoar nunca. Apesar de eu me tentar convencer de que foi melhor assim, depois de tanto sofrimento. Mas tinhas apenas 40 anos e ainda tanto por viver…

Adoro-te, pai! O que começou num desabafo é agora uma carta para ti, esperando que cada palavra acalme a minha dor.

Espero que estejas bem. Estás sempre no meu coração. Tenho saudades.

Sempre tua filha,
Carina.»

Uma semana após teres partido, pai, estava num sítio muito escuro. Mas fica descansado: hoje, estou bem. Não te esqueci. Apenas me habituei a não te ter. Continuo a sentir tristeza, mas aceitei, no meu coração, que todos nós temos uma missão temporal nesta vida.

Hoje, supostamente no meu dia de aniversário, as pessoas ainda não compreendem porque não gosto deste dia, porque o eliminaria do calendário, ou porque simplesmente não quero que me cantem os parabéns.

Explico: «O meu pai faleceu neste dia. Não gosto de comemorar». Ao que respondem: «Tens que ultrapassar isso. É também o teu dia de anos.» Respondo: «Tens razão, mas queres ver-me a chorar? É que desse dia recordo a hora exata em que recebi a notícia, quando estava na cantina com todos os meus amigos. Que, numa pausa de estudo, se reuniram para jantar comigo e me cantar os parabéns. Entre o querer gritar, chorar e correr para longe, optei por ficar. Optei por ficar naquele jantar em silêncio, rodeada de amigos, onde a comida não passou pelo nó que sentia na garganta. Em silêncio, a aguentar o choro!»

Querido pai, a mensagem que recebi pelo correio no meu dia de aniversário em 2005, o mesmo dia em que partiste, é a mensagem que hoje partilho contigo:

«Há tanto em ti que eu jamais poderia substituir. O carinho do teu sorriso… O calor do teu abraço… O conforto das tuas palavras. Neste dia especial, quero que saibas o quanto representas para mim! Muitas felicidades.»

Pai, onde quer que estejas, oro pela tua felicidade. Voltaremos a cruzar-nos.

E hoje, dia 16 de junho, o dia em que eu nasci e o dia em que tu morreste… felicidades a ti e à mãe, que me trouxeram ao mundo. A vós devo tudo aquilo que sou hoje.

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CARINA MAURÍCIO, a fotógrafa
É budista e conservadora-restauradora. É de riso e choro fáceis. Tem tanto de sensível, quanto de corajosa e lutadora. Adora fotografar, jogar ténis e viajar. Viciada em comida, é fã de comida italiana. Gosta de dormir, de café, de chocolate. Dançar? Pode ser a noite toda. Mas também gosta de ficar na ronha, em casa, entre filmes e pipocas. Adora o som da chuva a cair no inverno e o som do mar em dias de verão. Campos floridos enchem-lhe o olhar, assim como as cores das folhas do outono. Apaixona-se facilmente e é uma apaixonada pela vida. Uma geminiana pura.