Amo-te, mas odeio-te

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Fotografia © Nuno Correia | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Nuno Correia | Design © Laura Almeida Azevedo

Penso, dias e dias, nas razões de eu ser assim, de estar sozinho, de amar, de te amar tanto…. ainda, mesmo assim.

Sinto que não era bom a dizer o que queria, ou o que sentia. Mas cheguei à conclusão de que era medo. Eu tinha medo. Medo de ser feliz, medo de arriscar, medo de tudo…. Medo até de amar. Porque, se é para amar, é para amar à bruta, com todos os meus defeitos e feitios. E ainda hoje não sei de onde veio esta ideia de que eu não iria conseguir. Eu aguento, por ti, por mim, porque tu eras a minha força.

Um dia, vou olhar para trás e ver que fiz tudo o que podia ter feito. Ou, se calhar, não. Mas também já não interessa.

Espero que engulas em seco esse teu orgulho, que te levou aqui, ao ódio que te tenho. Quanto a mim, a única coisa que quero guardar é a leveza do toque dos teus lábios, o brilho do mel nos teus olhos, o cheiro do som na tua voz. O «bom dia, alegria». Não quero de todo a tua simpatia. Muito menos a tua honestidade. Procuro apenas paz de espírito e não te ouvir nunca mais. Sim, nunca mais poderá ser forte demais, mas é assim. Quanto mais longe da vista, mais perto de onde não devias estar.

É uma porcaria de um sentimento tão estranho.

Quem gosta de ti gosta da tua tolice, do teu humor, desse feitio que ninguém atura. Desse mesmo orgulho que me faz malquerer tudo o que em ti admiro.

Uma vez, li que uma mulher simples quer da vida muito pouco: uma palavra amável, sinceridade, ar puro, água limpa, um jardim, beijos, livros para ler e braços fortes onde se abrigar. Só não te consegui dar o jardim.

Amo-te, mas odeio-te.

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NUNO CORREIA, o desportista
Tem 36 anos. Nasceu em Coimbra. É um apaixonado pelo desporto e pelo ar livre. Descobriu o gosto pela escrita no dia em que deixou de acreditar no amor... Ou, aqui entre nós, talvez não.