Paninhos quentes

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Fotografia © Raquel Ferreira | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Raquel Ferreira | Design © Laura Almeida Azevedo

Vá lá. Sejamos honestos. Quantas vezes tentamos apagar a dor da tristeza? Quantas vezes lhe tentamos trocar as voltas? Quantas vezes? E eu não critico, nem tão pouco digo ser errado. Não. Eu só digo que, às vezes, não resulta.

Às vezes, não resulta passar paninhos quentes quando a tristeza tem de ser tratada a frio. Bem a frio. Às vezes, não a podemos mascarar com risadas e gargalhadas. Às vezes, não podemos substituí-la por uma comédia, quando só precisamos de saber viver um drama. Porque, às vezes, precisamos mesmo de a sentir. Precisamos de parar e pensar nela. Senti-la a percorrer as nossas entranhas. Sentir a dor e os estragos que deixa em cada lugar por que passa. Sentir todos os bocadinhos que leva de nós. Às vezes, só precisamos de ser sinceros com a tristeza. Porque, sim, os paninhos quentes resultam, mas será que resultam a longo prazo?

Vá lá, sejamos honestos e admitamos que a tristeza só é capaz de morrer se for encarada pelos cornos, se a sentirmos a romper cada bocadinho de nós, se, assim que nos envolve, nos permitimos ver até onde é capaz de ir. Há talvez que tentar perceber o que, afinal de contas, esta tristeza quer fazer connosco e com a nossa capacidade de sentir.

No fim, talvez no fim, a tristeza comece a suavizar sozinha, sem comédias, risadas ou gargalhadas. No fim, talvez no fim, não seja necessário um esforço tremendo para a colmatar, porque ela fá-lo-á sozinha. No fim, talvez no fim, a tristeza tenha sido a nossa maior professora e a lição de vida, de que andávamos a precisar para crescer, sem aumentar a altura, mas fortalecendo o coração. No fim, talvez no fim, tenha sido melhor não usar paninhos quentes, para não aumentar o ardor da ferida e encará-la pelos cornos, para lhe perdermos o medo.

Vá lá. Sejamos honestos. Às vezes, só precisamos de nos deixar sentir.

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RAQUEL FERREIRA, a engenheira
É de uma aldeia perdida no norte do país e ambiciona ser mestre em Engenharia Civil. No percurso, apaixonou-se pelas palavras e escreve. Sobre tudo. Sobre nada. Ainda não é tudo o que quer ser, mas luta todos os dias por isso.