Amo-te, mãe

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Fotografia © Anabela Mata | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Anabela Mata | Design © Laura Almeida Azevedo

Acordei sobressaltada. Aliás, mal tinha dormido naquela noite. Não percebia bem porquê. Afinal, até estavas um pouco melhor no dia anterior. Tinhas apertado a minha mão e sorrido para mim. Ainda assim, fora do que era habitual, mal acordei quis ir ao hospital. Não era hora de visita, mas eu entrava e saía a qualquer hora.

Nunca vou esquecer a cama vazia, o medo, a falta de ti, o corpo a escorregar parede abaixo, enquanto o médico me tentava abraçar e dizer aquilo que ninguém quer ouvir: «Tens de ser forte!» Como pode alguém ser forte, quando lhe tiram um pedaço da vida? Como pode alguém ser forte, quando tem de ir para casa e dizer, ao homem que amou uma mulher por mais de 40 anos, que ela não vai voltar? Como pode alguém ser forte, quando não foi a tempo de parar o tempo?

Ainda hoje me pergunto o que falámos nós na última noite. Apagou-se tudo da minha memória! E vivo com este medo de não te ter dito o quanto te amava, de não te ter repetido o quanto precisava de ti na minha vida…

Éramos tão diferentes! Discordávamos em quase tudo. Chocávamos de frente nas nossas convicções. Medíamos forças. Travávamos batalhas. Mas, em todas elas, vencia o amor que me tinhas e que eu te tinha! E o amor de mãe, ensinaste-me tu, pode ser exprimido nos silêncios, pode ser interpretado nas linhas tortas, pode ser manifestado de várias formas, mas será sempre um amor incondicional e único!

Escrevi-te imensas vezes ao longo dos anos. Sabes que sempre fui de escrever! Acabo sempre a ler em voz alta o que te escrevo. Não vá o pai não estar aí para te ler as minhas cartas. Escrevo-te, porque sei que nem sempre estás feliz por mim, que nem sempre te orgulhas do percurso que tracei, que nem sempre sou o que tu idealizaste para mim!

Continuo a ser a teimosa do costume, a rebelde sem causa, a que não aceita que lhe ditem regras, a que não se deixa guiar pelos outros, a que sabe sempre o caminho a seguir mesmo que esteja perdida. Continuo a ser eu, a que não se deixa moldar, a que não se deixa apanhar na rede do que é certo e politicamente correto. Tentei. Sabes que sim! Tentei ser a mulher que foste, mas eu sou eu, mãe, ainda que com um enorme orgulho em tudo o que eras e no quanto me ensinaste a ser!

Dizias-me tantas vezes: «Um dia, quando fores mãe, é que me vais dar valor!» Juro que me lembrei disso, naquele dia, quando aquela maldita ecografia me disse que o coração do meu bebé não batia… Juro que senti a mesma dor e o mesmo vazio do dia em que vi a cama de hospital vazia! Queria passar para ele (tinha a certeza de que era um rapaz!) uma parte de ti. Queria passar para ele o que de melhor me deixaste. Queria mostrar-te que tinha aprendido contigo a ser uma mãe de amor, como tu sempre foste! O tempo, mais uma vez, não me deu tempo…

Sinto-te a falta. Em cada um destes 16 anos, sinto-te a falta…

Não me lembro se to disse naquela última noite, enquanto me apertavas a mão e sorrias, mas amo-te, mãe. Amo-te com o mesmo amor incondicional que me ensinaste, com a mesma verdade com que me educaste, com a mesma inesgotável saudade que só quem ama sente…

Agora, vou ler-te tudo isto em voz alta. Não vá o pai não estar aí para te ler mais esta carta!

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ANABELA MATA, a bella
Ela é uma mulher ativa, vegetariana e adepta da vida saudável. Por isso, adora cozinhar, dançar, viajar e, sim, escrever — para ginasticar as emoções. Escreve com o coração: esse, que sente, ama, sofre, é feliz. Adora sorrir. Quase se poderia dizer que ela é a Bella porque é assim que vê a vida.