Mulher aos 38

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Fotografia © Júlia Domingues | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Júlia Domingues | Design © Laura Almeida Azevedo

Trinta e oito anos (quase 39). E o que esperam de ti? Que estejas casada, com uma ninhada de filhos ou, pelo menos, com um — com os tempos que correm, temos de ser conscientes! Que já não te lembres da última vez que chegaste a casa às cinco da manhã e que a tua bebida favorita, agora, seja sumo de abacaxi com hortelã, porque já lá vai o tempo em que tinhas idade para beber álcool. Com 38 anos (quase 39), esperam que estejas a comprar bilhete, para assistires em primeira fila, a uma crise de meia-idade e que aceites o que a vida te reservou.

— É assim a vida!

 Vamos andando!

— Cada um com a sua cruz!

Aos 38 anos, é expectável que aceites, tacitamente, o que o destino guardou para ti e, mesmo que a vida não se pinte todos os dias de cor-de-rosa, há coisas piores. Por isso, não nos devemos queixar. Estamos demasiado formatados para o que é socialmente estipulado. Deves nascer, crescer, tirar um curso (ou não), arranjar emprego, casar com um homem trabalhador, ter filhotes lindos e que tenhas saúde para os criar.

Ah! E, evidentemente, isto antes dos 40 anos, se faz favor.

Se, por algum motivo, não reunires estes requisitos aos 38 anos (quase 39), entras, automaticamente, para o denominado clube das encalhadas.

— Coitada, não tem sorte nenhuma!

— Ninguém lhe pega!

Oppss! Lamento, mas eu saio na paragem antes, se não se importarem!

Acho fantásticas todas as pessoas que, aos (quase) 40 anos, têm em mãos um projeto onde tentam manter um emprego que não seja precário, um casamento ou uma relação que não se alimente de aparências e que, neste pacote, ainda esteja incluído um filho (ou mais). Nos dias que correm, ter isto tudo num pack é uma tarefa ingrata e de dificuldade extrema. Terão sempre a minha sincera admiração e respeito.

Para nos mantermos à tona, é obrigatório reinventarmo-nos todos os dias. Se optamos por apostar numa carreira, deixamos, muitas vezes, de poder dar banho aos nossos filhos e não conseguimos levá-los à escola. Tantas vezes que pedimos ao marido que segure as pontas, porque hoje temos de ficar, no trabalho, até mais tarde!

Se a prioridade for o maridão, sabemos que aquela promoção profissional deixa de contar com a nossa candidatura, pois ainda não descobrimos o dom de sermos omnipresentes. Se os filhos forem a prioridade… Bem, os filhos são sempre a prioridade. Motivo este, pelo qual aparecemos tantas vezes com olheiras até aos cotovelos, com preocupações até aos olhos, mas sempre com orgulho até à ponta dos cabelos.

Isto, se correr bem, é assim que acontece. E ainda bem! Nada melhor do que, no final do dia, chegarmos a casa e bastar um sorriso sincero para esquecermos a semana stressante que começa às 6:30 da manhã. É compensador, reparador e evita as malditas rugas de expressão, que ameaçam começar a aparecer.

Eu, aos 38 anos (quase 39), (ainda) não tenho nada disto, no meu dia a dia.

Mas recuso-me a apanhar o autocarro com destino ao clube das encalhadas. Não sou casada, porque não me chega o que está socialmente estipulado. Quero sofrer de amores de verdade e, quando assim for, caso-me. Quero acreditar que uma criança ainda é resultado supremo da união do amor entre duas pessoas e, quando assim for, terei filhos. Quero ter em mãos um projeto que seja feito de verdades, de partilha e de sonhos e, quando assim for, deixarei de chegar a casa às cinco da manhã.

Enquanto isso não acontecer, assumirei as minhas primeiras rugas, viverei amores platónicos e esperarei pelo homem que seja trabalhador.

Porque ser mulher aos 38 anos (quase 39) não é sinónimo de beber apenas sumo de abacaxi com hortelã!

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JÚLIA DOMINGUES, a JUX
Tem 38 anos. É solteira e igual a si mesma. Licenciou-se em Direito, sendo Jurista, mas a mais sábia aprendizagem foi aquela que a camaradagem desses tempos trouxe — e que dura, na maioria, até hoje. Tem um refúgio que gosta de pensar que é secreto: Braga, Gerês, a terra dos seus pais. Desde os 25 anos que diz: «Qualquer dia, piro-me de vez para o Norte. Quando for grande.» Mas nunca se pira, apesar de já ser grande. Adora tudo o que seja trabalhos manuais e o desenho é, sim, a sua verdadeira paixão. Tem fobia a andar de avião. E acredita no amor, embora não em coisas especiais. Afinal, não é preciso que ele venha de cavalo branco.