Era um pão com sotaque, se faz favor

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Ilustração © Laura Almeida Azevedo
Ilustração © Laura Almeida Azevedo

Ele entrou pela sala dentro para se apresentar, e dizer-me que estava disponível para me esclarecer alguma dúvida que tivesse. Eu caí ali de paraquedas, sem saber ao que ia e, por isso, toda a ajuda era bem vinda. Como se já não bastasse a ansiedade que sentia, dado o desafio que tinha em mãos, a minha reação à sua presença apanhou-me de surpresa.

Reconheço que era um regalo para a vista. Um jeitoso de trinta e tantos anos, de sorriso tímido. Cabelo curto e barba aparada, ambos com algumas pinceladas de cinza, uma tonalidade que encaixava na perfeição na sua tez morena. Tinha uma aparência que fazia adivinhar que mesmo o que não estava à vista estaria no seu devido sítio. A voz, além do seu tom grave, era acentuada por um sotaque que se ouve pouco por estas bandas, mas que é sem dúvida o meu favorito, entre todos os existentes neste país.

Fiquei desconcertada. Corei, como já não corava há muito, apenas pela presença de um estranho. Devo ter ficado mais rosada do que os bêbedos que cirandam pelas ruas da minha cidade. Ele era um pão. Com sotaque.

À medida que fui tomando consciência de que estava a corar, ainda mais vermelha ficava. Entrei em ponto de ebulição. A partir de certo ponto, deixei de conseguir olhá-lo na cara. Só queria esconder-me nalgum buraco do chão, mas não havia nenhum por perto. Acho que pareci mal-educada, pois nem fui capaz de me apresentar devidamente.

Quando saiu da sala, perguntei-me: «O que é que foi isto?» «O que é que ele não terá pensado?» Eu costumo corar, mas, normalmente, é em consequência de algum momento embaraçoso ou de algo que corre mal. Mas não foi o caso. Era apenas uma situação corriqueira do meu dia a dia. Não conseguia perceber o que se passara. Mas, de repente, uma nova perspetiva surgiu na minha mente. Vi as coisas pelo lado positivo.

Afinal, ainda estava viva. Não morri contigo. Não levaste tudo de mim. O botão afinal não se desligou. Ainda é possível que alguém me faça tirar os pés novamente do chão; que alguém me lembre que, antes de tudo o resto, ainda sou mulher. Pensava que tinha perdido essa capacidade, de me deixar arrebatar de forma desprevenida, de ser apanhada com as defesas em baixo.

Este pão, que não só se apresentava bem à vista, tinha também substância. O carácter revelou-se na forma como trabalhava, no cuidado e exigência que tinha para com o seu delicado, mas difícil público. Este pão era do tipo que saciaria as várias fomes, a do corpo e da alma.

Só que este pão, além de sotaque, também tinha pernas e só estava de passagem. Não era para o meu dente. Já alguém o havia levado. Mas, pelo menos, houve uma razão para que ele desfilasse pela minha vida.

Ai, ai… mas porque é que eu não fico satisfeita com o básico, mas tão saboroso, pão com manteiga, ou com queijo, que é bem mais fácil de conseguir e dá bem menos trabalho?

E fiquei assim, a olhar para cima, de braços cruzados, a fazer beicinho. Amuei. Para quando um pão só para mim?

Oh Santo António, era um pão com sotaque, se faz o favor!

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ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.