A morte real de alguém para nós

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Fotografia © Frederic Frognier | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Frederic Frognier | Design © Laura Almeida Azevedo

O problema da tua passagem pela minha vida nem é tanto já não estares nela, mas sim cair na consciência de que o que fui contigo poder efetivamente esvair-se de mim.

Vai, de novo, fazer anos aquele nosso cruzamento na vida, mas penso cada vez mais que será sempre irrelevante a quantidade de tempo que passe. Porque, de tanto que já me assolou o que vivemos, penso que esta nova sensação que tenho não passará nem que decorram mil milhões de anos.

Esta é uma nova dor.

É uma eventual saudade infinita do que fui contigo. Eu. O que eu fui em ti. Não o que me fizeste sentir tu, mas ao que eu me dei, o que que me permiti, o caminho que abri em mim, o que senti por estar em ti, por me ter aventurado em ti, por me ter permitido a ti.

Só o consigo descrever como o verdadeiro orgasmo da minha existência. O ex-líbris de toda a atividade sensorial que tive e ainda terei na vida. Nenhuma célula, nervo, tendão ou tecido ficou protegida de ti. Entraste-me pelos poros, pela via sanguínea, pelo olfato. Respirei de ti, reinventando-me para sempre.

Nem teria alguma vez atingido tal grau de conhecimento existencial, se não o tivesse vivido assim em plenitude. Agradeço todos os dias ao universo, que tenha delineado tal experiência para mim. Que pobre teria sido a minha existência sem ela.

Duvido que a tenhas vivido assim tu… se bem que me assalta esse, no fundo, consolo, ao recordar o teu olhar de encantamento preso em mim, nas ocasiões em que certamente estarias completamente liberto dos teus fantasmas. Ou nunca estiveste de todo?

E no meio de toda esta fábula que foste e, mesmo ausente há tanto, tens sido na minha vida… assaltou-me hoje, apanhando-me totalmente desprevenida, o maior e mais terrível receio associado a tudo isto: e se eu te esqueço?! E se deixo fugir das minhas células todo o êxtase que me foste?!

É a isso, no fundo, que não me tenho permitido. É essa a amarra que tenho recusado soltar. Que pânico vim hoje a descobrir! se me esqueço do que fui aquando de ti.

Tu que nem mereces, como sempre terrivelmente tiveste consciência. Porque nem sequer alguma vez te encaixaste lá a ti próprio, embora tenhas tentado. Aliás, abrangência e poder que desconheces de todo possuir. A ti, que nem sabes existir, assim, ainda que sejas uma realidade. Foste uma bela criação minha, que se evaporou mal a lição chegou para criar raízes para sempre, ou até que Deus queira, em mim.

Que Deus me permita, um dia, falar-te de tudo isto, mas numa outra dimensão, possível para ti, em que mais nenhuma dor cause ou sinta, em que nenhuma lágrima caia, nenhum aperto no peito se manifeste, nenhuma força me falte nos membros. Que o possa fazer a sorrir e com ternura… que, do amante e amado que me foste, despeço-me nesta realidade, ficando só a recordação do que eu fui contigo, até que Deus queira.

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BÁRBARA MARCELO, a anónima
Toda ela é sentimento por diluir. Tem um trabalho comum, num qualquer escritório, faltando-lhe «o poder para limitar a linha intranquila e incansável do pensamento», que, tantas vezes, a leva a rabiscar. Gosta de pessoas simples, «com jeito cru e espontâneo». E da novidade da comida, da arte e dos encantos naturais, que encontra «neste passeio, sem destino, que é a vida». Tem um porto seguro. E adora a música e o mar. Aqui, entre nós: talvez, um dia destes, deixe de ser anónima.