O perfume do seu cheiro

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Fotografia © Nuno Correia | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Nuno Correia | Design © Laura Almeida Azevedo

A solidão persegue-me. Só me consigo lembrar daquela noite. Só, ligado a tantas máquinas. Os enfermeiros a correrem de um lado para o outro. «Mas o que se está aqui a passar?», perguntava-me.

Ao longe, uma gargalhada inquietava-me! Um som estridente, vindo não sei bem de onde, era interrompido pelo bip da máquina. Outra correria. O sangue parecia que não corria e lá voltava eu outra vez. Parecia que ressurgia do fundo de uma piscina, ofegante, encharcado e voltava a estabilizar. Que coisa estranha! As máquinas voltavam a um ritmo aparentemente normal. Os enfermeiros respiravam de alívio.

Ao fundo, a tela era enorme e as imagens passavam de relance, fugazes, em instantes mágicos misturados com o crepitar de algo, ao de leve. O cheiro a doce era intenso, tal como o ruído leve, em surdina.

Intensificava-se aquele riso maléfico, horrível mesmo, que se misturava com a escuridão dentro da minha cabeça. No meio de tanta inquietação, vislumbres ligeiros trazem-me à memória aquela tela, de novo, ao longe. O silêncio era apenas interrompido, de quando em vez, por um bip bem sonoro.

Não conseguia pensar. Os meus olhos ficaram turvos. A mente não conseguia… Bloqueei completamente. Sentia uma sombra ao longe.

Deixei-me voar por este momento silencioso. Morno, revia as tuas palavras, que ainda estavam bem gravadas na minha memória. Não as conseguia entender, porque era interrompido novamente por aquela gargalhada estridente.

«Que coisa esquisita! Respira fundo. Mas onde é que eu estou?», perguntava-me.

Devagar, ia revendo aquela sombra mesmo à minha frente. O cabelo liso cor de mel. Os olhos doces a olharem-me, tão penetrantes. O lábio ligeiramente trincado… Aquele sorriso perfeito. Linda aquela imagem, cada vez mais próxima de mim. Até já sentia o cheiro doce do seu perfume. Os seus lábios a aproximarem-se dos meus. O toque foi tão suave, que senti um arrepio pelo corpo todo.

— Bom dia! Dormiste durante o filme todo!

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NUNO CORREIA, o desportista
Tem 36 anos. Nasceu em Coimbra. É um apaixonado pelo desporto e pelo ar livre. Descobriu o gosto pela escrita no dia em que deixou de acreditar no amor... Ou, aqui entre nós, talvez não.