Um tostãozinho para o Santo António

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Fotografia © Julia Domingues | Ilustração © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Julia Domingues | Ilustração © Laura Almeida Azevedo

Chegámos, finalmente, a um dos meses mais esperados do ano: Junho.

Junho, de há uns anos para cá, passou a ser sinónimo de festas, arraiais e um ótimo pretexto para deixar a tristeza em casa e substituí-la pelo que de melhor há em nós. Ser tuga!

E ser tuga é passar o resto do ano a queixarmo-nos do nosso fado e, em junho, erguer com orgulho bandeirinhas e bandeirolas de Portugal. Ser tuga, em junho, é substituir a esplanada do café pelas tábuas em madeira, sustentadas por uns pregos, na maioria das vezes, tortos, cobertas por oleados que chamamos toalhas e por uns bancos corridos e que mais parecem baloiços tirados de um qualquer parque infantil.

Se, durante o resto do ano, um restaurante onde se sinta o cheiro a comida na sala é mais do que motivo para deixarmos uma reclamação no tão temido livro vermelho, em junho, o cheiro é ingrediente obrigatório. O cheiro a sardinhas assadas, a salada de pimentos e a caldo verde!

Existe algo mais genuíno do que degustar uma sardinha assada num grelhador, feito num bidão cortado ao meio?

Talheres? O que é isso? Em junho, devemos recorrer às técnicas mais primárias de como sobreviver sem talheres. Ninguém leva a mal. Andamos uma vida inteira a tentar perceber para que servem aqueles 300 utensílios que nos apresentam numa mesa de casamento, para, em junho, serem, tão agradavelmente, substituídos pelo mais elementar prato de plástico ou, na melhor das hipóteses, por um prato de loiça, devidamente lascado no seu rebordo.

E as rifas? O que nós, tugas, em junho, nos debatemos por um bom par de rifas!

Ficamos danados se, ao desenrolar aquele papelinho, não aparecer nenhum número, que sabemos que equivale a um prémio. É pelo valor do prémio? Claro que não. Pelo valor do prémio, jogamos, durante o resto do ano, nos jogos da Santa Casa da Misericórdia. É pelo gozo que nos dá.

Gritamos a todo o gás que fomos bafejados pela sorte. De imediato, olhamos para a montra de prémios, que vai desde a cesta do pão até ao tão afamado cão de loiça. Lembro-me de uma vez me ter saído um abajur de franjas. E, se procurarmos bem, em casa de alguns de nós talvez o mesmo ainda exista, arrumado a um canto qualquer da arrecadação, fruto de uma noite de sorte.

Junho é mês de ouvirmos os nossos a cantar!

Esquecemos quem está nos tops musicais, porque neste mês o que queremos mesmo é ouvir os pregões, as músicas com letras brejeiras e aplaudir as nossas bandas de baile.

Em junho, ser tuga é deixar aparecer a nossa mais genuína simpatia. Quantas vezes partilhamos, com outros grupos, aquelas mesas com bancos corridos, onde quem se senta à mesa connosco só é desconhecido na primeira meia hora? Depois disso, os brindes com copos de sangria já são feitos em conjunto.

— À nossa!

E, se conseguimos ser assim durante um mês inteiro; se sabemos rir de nós mesmos; se sabemos utilizar a lei do desenrasca, que tão bem nos define; se somos muito mais soltos, muito mais simpáticos, muito mais felizes, por que raio desaprendemos tudo isto, logo a seguir?

Porque é que, na segunda-feira de manhã, a música passa a ser as buzinas dos carros nas filas de trânsito; as sardinhas assadas passam a ser uma sopa comida em pé, num restaurante apertado e as rifas passam a ser só a lotaria de Natal? Porque até as apostas estão caras.

Porque é que ser tuga, em junho, é música popular e, no resto do ano, tem de ser um triste fado?

Deveríamos trocar mais vezes as mesas convencionais pelas tábulas de madeira sustentadas com pregos tortos, usar mais toalhas de oleado e comer mais vezes sem talheres!

Não estou a dizer que, no resto do ano, devemos ser rudes e mal formados. Nada disso. Estou a dizer que devíamos ser mais genuínos, mais humanos, mais tugas!

E já agora:

— O que é feito do tostãozinho para o Santo António?

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JÚLIA DOMINGUES, a JUX
Tem 38 anos. É solteira e igual a si mesma. Licenciou-se em Direito, sendo Jurista, mas a mais sábia aprendizagem foi aquela que a camaradagem desses tempos trouxe — e que dura, na maioria, até hoje. Tem um refúgio que gosta de pensar que é secreto: Braga, Gerês, a terra dos seus pais. Desde os 25 anos que diz: «Qualquer dia, piro-me de vez para o Norte. Quando for grande.» Mas nunca se pira, apesar de já ser grande. Adora tudo o que seja trabalhos manuais e o desenho é, sim, a sua verdadeira paixão. Tem fobia a andar de avião. E acredita no amor, embora não em coisas especiais. Afinal, não é preciso que ele venha de cavalo branco.