A vida continua à tua espera

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Fotografia & Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia & Design © Laura Almeida Azevedo

Sabes que viver não é tão simples, quanto parece, quando o coração te ferve dentro do peito. Sabes que também custa, que também dói e que arranha por dentro, quando não consegues respirar. Sabes que viver confronta-te com o pior e o melhor de ti. Que testa os teus limites, obrigando-te, em cada escolha, por mais pequena que seja, a decidir quem queres ser na vida. Sabes que viver é muito mais difícil do que te contaram os livros infantis. Que, por vezes, por mais que mastigues as tuas emoções, elas, mesmo assim, não se dissolvem. Porque a vida também te ensinou que nem todas as emoções são mastigáveis.

Sabes que fazeres por ser feliz é muito mais complicado do que saíres à rua para comprar um gelado. Ou do que, na birra dos seis anos de idade, meteres os teus brinquedos dentro da mochila da escola e anunciares aos teus pais, com ar altivo e determinado, que vais sair de casa. Mas, felizmente, nunca sais.

Sabes tudo isto — que a vida não é só feita de ataques momentâneos de coragem, em que te sentes capaz de enfrentar este mundo e o outro, por ti —, quando estás aí: sentada, com essa bola de fogo gigante, rodopiante, enorme, a ferver dentro de ti. E a sufocar-te.

Sabes, então, enquanto agonizas, que a vida também agride. Que, mesmo não te mostrando o pior de que é feita, também desorienta. Que, sendo exatamente como é — imprevisível, abrupta, incontida —, te arranca os pés do chão. E que, nesse preciso instante em que ficas suspensa no ar, em que flutuas sem orientação, estás sozinha. Por tua conta.

Sabes que isto — a que, airosamente, chamas primavera e que te dá a ilusão de que não apreciar todos os momentos da vida, mesmo os mais duros, é seres mal agradecida — te mete um sorriso irónico nos lábios. Porque a primavera também acaba. Porque qualquer escolha que fizeres tem repercussões na tua vida — e na dos outros. Porque, por mais legítimo que seja o teu direito de arriscar, a tua felicidade pesar-te-á sempre, como chumbo, se fores feliz às custas da infelicidade dos outros. E, na tua bondade, isso tirar-te-ia a legitimidade para seres feliz.

Sabes tudo isto aí. E agora. Em silêncio.

Aí, sentada, com essa bola de fogo, que é o teu coração, a deixar-te o corpo em carne viva. Aí, com essas mãos frágeis, trémulas, cheias de vontade, mas sem coragem. Aí, com os teus olhos absortos a olharem a vida à tua volta, enquanto o sol cai e a noite chega de mansinho, entre flores, casas e crianças que correm felizes — e que tropeçam em ti, inocentes, sem a menor ideia de que, um dia, vão estar no mesmo lugar que tu, sabendo o que tu já sabes.

Sabes o que te digo? Desiste.

Sim, desiste. Chora. Estrebucha. E esperneia.

Até ganhares, de novo, fôlego.

E, quando o sol nascer de novo, quando fores capaz de voltar a respirar fundo, quando tiveres coragem para erguer o rosto e olhar a vida, agarra em tudo o que ela te ensinou, transforma-o na tua força e luta. Não pelos outros. Por ti.

Luta até os braços te caírem — e, descansa, eles não caem. Luta até a voz te faltar — e, descansa, ela não te falta. Luta até não haver mais por que lutar. E segue em frente com a mesma determinação com que, agora, te congela o medo.

Porque, apesar de tudo, continuas a sonhar. Porque o teu futuro ainda pode ser o que tu quiseres. E porque a vida, sim, continua à tua espera.

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LAURA ALMEIDA AZEVEDO, a desafiadora
37 anos. Uma dose saudável de loucura. Gosto por tudo o que é novo, diferente, ousado, criativo. Apaixonada por palavras, desenho e comunicação. Licenciada em Jornalismo. Designer gráfico, ilustradora e autora do livro e do blogue «Apetece(s)-me». Incapaz de viver sem a luz do sol, mas completamente rendida ao silêncio da madrugada. Viciada em música, chocolates e varandas. Fascinada por cidades, pessoas e emoções. Nunca diz que não a uma discussão construtiva: afinal, é a conversar que as pessoas se entendem. Em miúda, o seu jogo preferido era o Jogo da Verdade.