Em criança podíamos ser tudo

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Fotografia © Carina Maurício | Ilustração © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Carina Maurício | Ilustração © Laura Almeida Azevedo

Fui criança durante pouco tempo. Cresci rapidamente. Cresci responsável.

Mas foram momentos felizes. A crescer no meio de duas irmãs e muitos primos havia sempre brincadeira. Não desleixávamos as tarefas de casa nem os tpc’s, mas havia sempre tempo para ir para a rua até ao anoitecer.

Não havia computadores, videojogos, nem brinquedos caros. Não havia telemóveis, nem preocupações dos pais. Nada acontecia. Éramos livres e vivíamos felizes.

Dos brinquedos da minha infância recordo a minha primeira boneca que gatinhava, o único presente que a minha madrinha me ofereceu, que trouxe de França.

Lembro-me ainda de outra boneca que a minha mãe me ofereceu, uma imitação rasca da barbie, mas que eu adorei. E lembro-me de fazer roupas para ela, com as minhas irmãs, com os trapos que íamos buscar à costureira e seguindo os modelos da La Redoute da minha mãe. Essas tardes de costura, com pontos mal-amanhados, deixam saudade. Tínhamos uma caixa de sapatos cheia desses modelitos. Para essa mesma boneca fizemos uma casa com várias tábuas e troncos de madeira pregadas e improvisadas. E o “Ken” da nossa “barbie” era um boneco chorão, com cara de bebé, muito mais pequeno e gordo do que a elegante boneca. Mas, nas histórias de crianças, nada disso importa.

Lembro-me de irmos à praia, poucos dias por ano, e por isso eram tão especiais. E dessas idas à praia lembro-me do brinquedo ir e vir, que nos fazia doer os dedos sempre que a bola batia do nosso lado. Mas adorávamos esse brinquedo, oferecido por um tal «senhor das favas».

Recordo tão bem as casinhas que fazíamos com caixas da fruta dos meus avós, num armazém de terra batida, cheio de bicharada e teias de aranha. Mas éramos crianças destemidas e corajosas e não importava a presença das aranhas ou carochas. Improvisávamos todas as divisões e, com objetos e trapos velhos, construíamos um recanto onde nos sentíamos bem.

Ainda com caixas, improvisávamos um carro. Duas caixas de pé faziam a parte da frente do carro. Ao meio destas, era colocada a cana das mudanças, encaixada num buraco dum tijolo de pé. Na caixa do condutor encaixava uma tampa de lata de tinta a fazer de guiador. Os bancos eram caixas deitadas. E ainda havia tábuas a fazer de portas.

Houve ainda alturas em que improvisámos uma escola, colocando os nossos livros antigos nas carteiras dos alunos. Ou em que, vestindo roupas velhas do sótão, fazíamos passagens de modelos. Gravávamos em cassetes o Made in Portugal, para depois em sucessivos starts e plays escrevermos as letras das músicas, num caderno que tínhamos – sim tínhamos tempo para isso. Para depois cantarmos em festivais improvisados, a imitar os programas de música da televisão, com um qualquer objecto a fazer de microfone.

Brincava com carrinhos, com os meus primos, num monte de areia, onde construíamos lagos, casas e pontes.

Fazíamos cabanas com os troncos cortados quando arranjavam os cedros. E sentia-me tão protegida dentro daquelas cabanas.

Depois, a certa altura apoderámos-nos do sótão. Fizemos aí outra casa. Esta com mobílias a sério, velhas e inutilizáveis. E aí descobrimos um mundo de livros antigos, que eram dos meus tios. Era como se tivéssemos descoberto um tesouro.

Por falar em tesouro, lembro-me de uma vez, no rio, termos encontrado uma escultura de um rosto. Não sei porquê, mas na altura voltámos a enterrá-la e nunca mais a vi…

Esses dias no rio e nas fazendas do meu avó eram autênticos dias de liberdade, sem medos, só nós e a natureza.

Jogávamos à macaca, ao elástico, aos polícias e ladrões. Gastávamos montes de água a tomar banhos de mangueira no verão.

E lembro-me ainda dos Onda Mania, que a minha mãe comprou uma vez na feira para mim e para as minhas irmãs, quando ficámos em casa com varicela. Eram rosa, verde e amarelo fluorescentes.

Em criança, fui mãe, professora, dona de casa, modelo, cantora, veterinária… Em criança podíamos ser tudo e éramos! Éramos crianças felizes e desenrascadas, cheias de criatividade. Éramos inventores do nosso mundo, onde não havia guerra, doença ou tristeza.

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CARINA MAURÍCIO, a fotógrafa
É budista e conservadora-restauradora. É de riso e choro fáceis. Tem tanto de sensível, quanto de corajosa e lutadora. Adora fotografar, jogar ténis e viajar. Viciada em comida, é fã de comida italiana. Gosta de dormir, de café, de chocolate. Dançar? Pode ser a noite toda. Mas também gosta de ficar na ronha, em casa, entre filmes e pipocas. Adora o som da chuva a cair no inverno e o som do mar em dias de verão. Campos floridos enchem-lhe o olhar, assim como as cores das folhas do outono. Apaixona-se facilmente e é uma apaixonada pela vida. Uma geminiana pura.