As histórias de amor podem ser como as flores

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Ilustração © Laura Almeida Azevedo
Ilustração © Laura Almeida Azevedo

Encontraram-se no mesmo banco de jardim em que se conheceram. O mesmo banco de jardim com vista para o Tejo que lhes trazia um horizonte de possibilidades. Assim que os seus olhares se cruzaram, recordaram as juras de amor que aquele jardim testemunhou. Foram tantas, mas falharam todas.

Olharam-se e ficaram no silêncio que já conheciam. Sempre admiraram o som do silêncio que os unia. Foi nesse silêncio que ele lhe disse que já lhe começaram a nascer as primeiras rugas e ela respondeu-lhe dizendo que já se faziam notar os primeiros cabelos brancos dele. Constataram aí que já tinham passado dez anos e a vida foi passando por eles. Passaram dez anos desde o último beijo apaixonado, desde a última noite de sexo e desde o último abraço sufocante. Ele reviveu todas as noites em que ela adormecia no seu peito e ele lhe sentia o calor da respiração e ela sentiu saudade do beijo de bom dia que a acordava. Quis matar a saudade naquele instante, mas faltou-lhe a coragem.

Continuaram a falar naquele silêncio. Sempre admiraram as conversas que tinham sem as palavras, mas com o olhar. Ficaram indiferentes aos transeuntes e ao anoitecer do dia. Naqueles minutos foram só eles. A mesma rapariga e o mesmo rapaz de há dez anos atrás, a tentarem compreender onde foi que se perderam um do outro, onde foi que a paixão se apagou, se tudo o resto se mantinha inalterável. O rio, o som dos pássaros, o banco de jardim. Era tudo igual ao dia em que se conheceram. Menos eles. Foi aí que perceberam que algo se tinha alterado. As flores. Não eram as mesmas. Eram sim da mesma espécie, mas durante dez anos morreram e nasceram inúmeras vezes. As pétalas caíram, mas foram nascendo cada vez mais fortes, mais resistentes.

Havia passado exatamente dez anos, mas, naquele momento, compreenderam que as histórias de amor podem ser como as flores: morrem para (re)nascerem mais fortes ainda. E ficaram ali, no mesmo banco de jardim de há dez anos atrás, prontos a florir mais uma vez.

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RAQUEL FERREIRA, a engenheira
É de uma aldeia perdida no norte do país e ambiciona ser mestre em Engenharia Civil. No percurso, apaixonou-se pelas palavras e escreve. Sobre tudo. Sobre nada. Ainda não é tudo o que quer ser, mas luta todos os dias por isso.