Papel principal

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Design © Laura Almeida Azevedo
Design © Laura Almeida Azevedo

É hora de aceitar que foi excelente. Diria mesmo monumental. Que foste o meu renascer, a minha bússola, o farol orientador para me encontrar… naquele momento, crucial.

Parece que, a partir dali, tudo tomou graça autêntica, som refinado, sabor sem igual. Loucura… porque sempre esteve tudo ali, afinal! Loucura ainda maior porque tu fizeste tão pouco… ou tão muito?! És um muito ou um pouco?

Seres o que és bastou, ou não foste o que és? Foste uma máscara ou mascarado andas desde então? Que te corre nas veias? O teu sangue próprio ou o sangue de quem é uma pura ilusão?

Seja como for, é hora de aceitar o peso que tal história teve e tem. Parar de fingir que controlei ou controlo a desilusão associada.

Mas respeitei-te e respeitei a tua decisão. Nunca mais interferi na tua vida. Fui tão grande por tal! Uma linda menina bem comportada.

Até isso é um peso tão absurdo, um preço tão elevado — o sofrer calada.

O alívio de saber-me desta vez controladora do ímpeto, dessa cegueira que poderia levar-me a maiores arrependimentos, não equilibra ainda assim a dor do vazio que permiti instalar-se. Porque só tu e eu sabíamos, só tu e eu vivenciámos, só tu e eu…

Não há outro ombro no qual chorar. E, se tu passaste a ignorar até que existiu, então estou só, nisto. Hora de aceitar que, de novo, me encontro perdida, a viver sem verdadeira paixão.

Olho desesperada para os ensinamentos que retirei da história contigo… Que fiz eu por mim nessa hora boa, assim de brutal?!

Agi, então! Dei-me uma chance, permiti-me e desafiei-me.

Pois, cá estou eu a ter reação igual! Estou aqui a dar-me uma chance, a permitir-me e a desafiar-me. Agora, contigo já não no papel principal.

Agora, ficas atrás do pano de fundo da minha história, qual peça imóvel, muda e surda, ainda que fulcral.

Repara: dei-me agora a mim o papel principal!

Teres estado diretamente exposto aos holofotes, certa vez, na minha vida, valeu-te atribuir-te uma luz tamanha, que talvez nem te assente assim tão mal…

Mas peço ao universo que, com este desafio de falar de ti, ela se esgote em mim, apague e se transforme apenas… num lindo memorial.

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BÁRBARA MARCELO, a anónima
Toda ela é sentimento por diluir. Tem um trabalho comum, num qualquer escritório, faltando-lhe «o poder para limitar a linha intranquila e incansável do pensamento», que, tantas vezes, a leva a rabiscar. Gosta de pessoas simples, «com jeito cru e espontâneo». E da novidade da comida, da arte e dos encantos naturais, que encontra «neste passeio, sem destino, que é a vida». Tem um porto seguro. E adora a música e o mar. Aqui, entre nós: talvez, um dia destes, deixe de ser anónima.