Um sentimento que já não me cabe no peito

804
Fotografia © Ana Pereira | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Ana Pereira | Design © Laura Almeida Azevedo

A vida só me permite amar-te através das palavras. E até isso é uma montanha russa.

Tem dias em que quero escrever o que está aprisionado, cá dentro, e não sai nada. Tem dias em que gostava de poder parar o tempo e registar de um só fôlego tudo o que quero dizer.

Tem dias em que as ideias se atropelam e estou constantemente a interromper o que estou a fazer para anotá-las. Tento desenvolvê-las mais tarde, mas, muitas vezes, não consigo e perco horas a tentar construir algo. Noutras vezes, tudo flui e nem dou pelo passar do tempo.

Anoto as ideias no que tenho à mão, num pedaço rasgado de uma folha de papel, num post-it, num caderno, no telemóvel, no próprio email. Às vezes, perco-as, esqueço-me que as tive. Reencontro-as espalhadas dentro da mala, na secretária lá de casa. Chego ao ridículo de não conseguir ler o que escrevi. Sou traída pela pressa. Mas continuo a preferir fazê-lo à mão.

É aflitivo quando quero por tantos pensamentos cá fora, mas, enquanto aponto um, os outros vão fugindo. Tem momentos em que apetece refugiar-me num canto escondido e deixar jorrar o que me inunda o peito, sem qualquer interrupção. Escrevo inebriada pelas emoções, alegria, tristeza, medo, melancolia, saudades, desejo, preocupação, amor, mágoa, ansiedade.

Tem dias em que tudo é pacífico. Outros em que o coração bate incontrolável. Tem dias em que consigo pausar e respirar. Outros em que a urgência é tal que nada me impede. Tem dias em que escrevo com um sorriso nos lábios. Outros com lágrimas nos olhos.

Tem dias em que paro porque sim. Tem outros em que sou apenas vencida pelo cansaço. Já me deitei às tantas da manhã para me levantar poucas horas depois. Já perdi dias inteiros imersa em pensamentos e a tentar transformá-los em palavras. Algumas vezes com resultado. Muitas mais sem resultado nenhum. Nunca satisfeita, sempre à procura da impossível perfeição.

Vivo dividida entre os dias serenos e os dias inquietos, entre os dias de aceitação e os dias de saudade, entre os dias de palavras e os dias de nada. Ainda bem que são apenas dias. Seria incomportável viver uma vida inteira assim.

Afinal, a distância entre a escrita e o amor não é assim tão grande.

O que seria de mim sem as palavras, se aquilo que me resta é apenas deixar transbordar para o papel um sentimento que já não me cabe no peito?

Comments

comments

PARTILHAR
Artigo anteriorDéjà vu (ou cenas e coisas do quotidiano)
Próximo artigoQuero-te, mas já não te procuro!
ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.