Déjà vu (ou cenas e coisas do quotidiano)

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Fotografia © Ryan McGuire | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Ryan McGuire | Design © Laura Almeida Azevedo

Mais uma noite em branco. O stress não te deixa dormir. O trabalho não te larga os sonhos. Toca o despertador. Cais da cama. Deambulas até à cozinha, como um zombie. Abres o estore. A luz fere-te a vista. Bolas! Mais um dia de chuva. Deprimente… Percorres os quartos, abres os estores e sacodes os miúdos:

— Hora de levantar!

Uns entreabrem os olhos arremelgados. Outros viram-se para o lado.

— Toca a acordar!

Tomas um banho a correr, entre os pingos do chuveiro. Vestes-te à pressa. Corres para a cozinha, ainda vazia, e gritas:

— Venham tomar o pequeno-almoço!

Engoles o leite quase de um gole e emborcas o pão, pela goela abaixo, quase sem mastigar. Finalmente, chegam mais convivas para o repasto matinal:

— Toca a despachar!

Acabado o repasto, tudo a correr para a porta. Há alguém que se esqueceu da carteira. Outro, do telemóvel.

— Que diabo! Estamos atrasados. Despachem-se!

Chegados à rua, chove:

— Porra! O chapéu está partido!

Paciência… Corres até ao carro. Depois de um sprint e da confusão das mochilas, está tudo sentado. Ligas o carro. Primeira paragem: escola. Depois de fazeres o papel da carrinha da escola, o caminho até ao trabalho. Muito trânsito e há acidentes. Qual é a novidade? Está a chover… Pelo caminho, tens, mais uma vez, a sensação de Déjà vu.

Chegas cansado. Resmungas um «bom dia» aos colegas. Sentas-te no cubículo que te reservaram no open space onde estão outros noventa e nove. Ligas o computador. Abres o email, o chat, o browser, a aplicação disto, a outra daquilo e mais uma de aqueloutro. Tens dezenas de “cenas” e “coisas” sempre urgentes para fazer:

— As “cenas” são, normalmente, muito urgentes.

— As “coisas” são, normalmente, para ser feitas asap (que, traduzido para português, significa «para ontem»).

Tens de cumprir o S.L.O. e ai de ti que falhes o S.L.A.. Aparece um colega com uma dúvida. Outro envia-te um email. E mais três chamam-te no chat. Pensas: «Preciso de um dispensador de senhas.» A meio da manhã, tens uma reunião e a meio cai-te uma chamada. É uma “cena” muito urgente:

— Assim que acabar a reunião, faço isso de imediato – dizes.

Retornas à reunião, que é com o cliente. Alguém fez asneira e tu levas na cabeça… Enfim, nada de novo.

Já passa da hora de almoço. O estômago ronca como um louco. Parece que tens um Furby desvairado dentro de ti. Sentes-te quase a desfalecer, quando a reunião termina. Quando sais para almoçar, os pés parecem mal tocar o chão. Sentes-te a cambalear. Chegado ao Centro Comercial mais perto, o almoço passa depressa de mais, a comer nos locais do costume. A escolha não é difícil, pois não?

Após o almoço, mantém-se o ritmo. No chat vão-te debitando “cenas” para fazer, uma após outra. Faz-te lembrar os Tempos Modernos, de Charlie Chaplin.

Sem teres dado por isso, é quase fim de dia e perguntas-te:

— Que fiz eu hoje?

Parece-te que fizeste muitas coisas e, ao mesmo tempo, tens a sensação de que… nada! Tens a cabeça em água, a latejar. Precisas de férias.. no mínimo! Vais ter de pedir ao Gru – O Maldisposto.

— Preciso de tirar uns dias de férias.

— Agora?! Nem pensar. Temos falta de pessoal. Além disso, se eu não posso tirar férias agora, ninguém pode.

Resignas-te e viras as costas. És apenas um número.

Sais a correr. Os miúdos esperam na escola. Mais uma recolha, um jantar, duas horas de TV e cinco minutos de prosa.

Cais na cama e preparas-te para mais um Déjà vu

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CARLOS DINIZ, o idealista
É informático, mas as letras também o assistem. Adora ler. Lá porque esta é a sua primeira experiência na escrita, não se deixa intimidar. Os desafios são para isso mesmo. Amante do que é natural, aprecia as coisas boas da vida. Acredita que «os sonhos comandam a vida» — e, aqui entre nós, comandam mesmo.