Não é tarde

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Fotografia © Ryan McGuire | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Ryan McGuire | Design © Laura Almeida Azevedo

Fala-me de nós, de quem somos e do que sentimos. Do que já vivemos e de tudo o que queremos viver. Fala-me da vida que nos fez como somos. Do passado que já passou por nós e das feridas que ele deixou. Do que temos e do que nos falta, do que sonhamos e do que tentamos escapar.

Escuta os gritos do meu coração. Irás perceber quantos sonhos de criança me fugiram das mãos e me fizeram chorar em outras tantas ocasiões. Tudo o que o mundo cruel me proibiu de viver. Quantas vezes me chamaram de louca. Como fiquei rouca de tanto gritar que estava neste mundo para ser mais do que mensageira das almas sofredoras.

É o teu silêncio que me prende. Saber que posso ser tua sem que o digas. Olhar-te e ver nesses olhos a força do teu desejo a confirmar que és meu. És o príncipe encantado dos meus sonhos. Aquele que me visita há mil sonhos, já sonhados. O mesmo que me foge há mil primaveras, que nunca consegui viver. Aquele por que esperei, em todos os invernos da minha vida, para que me pudesse aquecer nas suas mãos, mas que sempre se escondeu na sombra de cada verão que por mim passou.

Só agora, que se aproxima o outono, nesta viagem a que chamei vida, é que ele vem espreitar por entre as flores, já um tanto ou quanto amarelecidas, onde ainda existe o perfume da paixão que ele pode, se quiser, cheirar. Sim, só agora ele se aproxima. Mas ainda aqui mora muito amor neste corpo. Todo o amor, que fui guardando, por saber que um dia ele chegaria e, sem muitas palavras, me conquistaria.

Não te preocupes, que ainda tenho palavras para ti. Ainda sei juntar as letras para formar a palavra amo-te e gritá-la, vezes sem conta, no teu ouvido. Ainda tenho força para subir ao cume de um monte e gritar ao mundo o quanto te amo. Não quero que alguém tenha dúvidas sobre o meu sentimento por ti.

Os anos passaram por mim, mas ainda sei amar e desejar alguém. Foi isso que senti no segundo em que os nossos olhares se cruzaram. O meu coração não se enganou. Sim, tu és o amor a que a vida me destinou.

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ANGELA CABOZ, a miúda gira
Nasceu em Tavira há 49 anos. Desde a adolescência que é uma apaixonada pela leitura, pela escrita, pelo cinema e pela música. Escreve sobre sentimentos e, nas palavras, reflete a maneira de ver e de sentir o mundo. Em 2014, realizou um sonho: a publicação do seu livro «À procura de um sonho». Desde então, tem participado em várias obras coletivas.