Quem ama por inteiro não pode reclamar só metade

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Fotografia © Júlia Domingues | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Júlia Domingues | Design © Laura Almeida Azevedo

Sou feita de amores sôfregos. De intensidade no volume máximo e de sentir em doses exageradas.

Não aprendi a amar de outra forma. Não sei como se faz. Faltei a essa aula e, como não sei as medidas certas, ainda hoje acredito que devemos amar sem quantidades pré-definidas. Acredito que devemos fazer all-in, como se da maior aposta da nossa vida se tratasse.

Se ganharmos, já não precisamos de continuar a apostar no euro milhões, pois as maiores fortunas nem sempre são traduzidas em números. Se perdermos, compramos uma caixinha onde caibam todas as lágrimas que destinámos àquele amor e guardamo-la numa gaveta escura, com a certeza de que só a voltaremos a abrir, quando de lá sair um novo arco-íris, vulgo novo amor.

Como sei que te quero por inteiro?

Sei que te quero por inteiro, quando suspendo o meu respirar, em troca de um sorriso teu. Sei que te quero por inteiro, quando o sabor do teu beijo me alimenta a alma. Sei que te amo por inteiro, quando substituo a rosa dos ventos pelo rasto do teu caminhar.

E, se me dou assim, não posso receber só metade.

Quem ama, por inteiro, não pode reclamar só metade! Quem me tem, por inteiro, não pode querer só metade do teu eu. E isto nada tem a ver com exigir demais. Isto não se confunde com exigências.

Isto funde-se com seres. Seres que se querem mutuamente, que se alimentam de sorrisos, que são feitos da mesma fibra, que respiram o mesmo ar, que sentem com a mesma intensidade e que se têm sob as mesmas premissas. O mais fácil e grosseiro erro é achar que, por ter o teu corpo, tenho o caminho aberto para a tua alma.

Amar em excesso também faz mal. Amar em excesso também me fez mal.

Por vezes, de tanto te amar, esqueci-me de bem me querer. De tanto te querer, esqueci-me o quão importante era ser querida. De tanto dar, esqueci-me que também tinha de receber.

O excesso de amor também faz mal.

Aumentamos, desmedidamente, o amor pelo outro, roubando-o ao nosso amor-próprio. Esquecemo-nos de nós, porque só vemos o outro. Contentamo-nos com tão pouco, que esse pouco já nos parece demais.

Mas quem ama, por inteiro, não pode reclamar só metade. Quem ama, por inteiro, precisa da alma para poder entregar o corpo. Quem ama, por inteiro, só conseguirá fazê-lo na verdadeira aceção da palavra, quando doar o seu corpo, fundir a sua alma e sentir a vida a correr-lhe pelas veias, apenas com um só toque. E isso não acontece se só te tiver por metade.

Como posso aceitar que me dês um dia de cada vez, se o que tenho guardado para ti é o mundo? Como posso aceitar que me esboces apenas um sorriso, se o que eu quero partilhar é o meu gargalhar? Como posso dar-te a alma, se de ti só tenho o corpo?

Duas metades podem formar um só, mas um só nunca pode completar-se apenas com uma metade.

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JÚLIA DOMINGUES, a JUX
Tem 38 anos. É solteira e igual a si mesma. Licenciou-se em Direito, sendo Jurista, mas a mais sábia aprendizagem foi aquela que a camaradagem desses tempos trouxe — e que dura, na maioria, até hoje. Tem um refúgio que gosta de pensar que é secreto: Braga, Gerês, a terra dos seus pais. Desde os 25 anos que diz: «Qualquer dia, piro-me de vez para o Norte. Quando for grande.» Mas nunca se pira, apesar de já ser grande. Adora tudo o que seja trabalhos manuais e o desenho é, sim, a sua verdadeira paixão. Tem fobia a andar de avião. E acredita no amor, embora não em coisas especiais. Afinal, não é preciso que ele venha de cavalo branco.