Horas de vida

Texto vencedor | Desafio «Dia Mundial Sem Tabaco»

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Fotografia © Angela Caboz | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Angela Caboz | Design © Laura Almeida Azevedo

De cigarro esquecido entre os dedos, com um olhar fixo no horizonte que os seus olhos não vêem. O mar está ali à sua frente, com as ondas a rebolarem pela areia da praia. Uma mesa no lugar mais distante da esplanada com um café a esfriar e os pensamentos a aquecerem. É esse o seu ritual no final de cada dia.

Sente o corpo cansado e o vício do cigarro vai-lhe roubando horas de vida, além de lhe destruir a sua já frágil saúde. Mas, então, é o seu refúgio, as asas que o ajudam a voar para o mundo dos seus sonhos. Naqueles instantes que ali está, não existe mais nada. Somente ele e os seus sonhos por ali navegam. O cigarro ajuda-o a afastar-se de quem não o compreende. Aproveita também para descansar o seu corpo já envelhecido. Ali, sentado naquela cadeira desconfortável, viaja num mundo só seu.

É assim que vive com o cigarro como sua única companhia. Uma companhia silenciosa que se faz de amiga nas suas horas de tristeza, mas que, na realidade, é a sua maior inimiga. Vai-lhe roubando o bem mais precioso que tem. A sua saúde.

Só que, nas horas em que precisa de pensar na sua triste vida, é o cigarro que, disfarçado de fantasma amigo, se senta ao seu lado e o acompanha na rota dos pensamentos. O único que não o crítica, nem lhe ralha.

Afinal, por que é que todos lhe dizem que o cigarro é mau, se é ele que fica ali, quando todos os outros o abandonaram? São muitos anos de angústia e sofrimento e o vício no tabaco fez dele um homem viciado. Hoje é esse vício o seu único companheiro. Escuta-lhe as palavras que mais ninguém entende e apoia-o em todas as suas decisões.

Se tem sido assim durante toda a sua vida, por que haveria de mudar agora, que já vê ao longe a meta final da sua existência? A única coisa que pede é que o deixem viver em paz e na companhia do fiel amigo cigarro. Ele sabe que o cigarro lhe tem encurtado a vida, mas também o mundo lhe tem destruído a alma. Então, porquê abandonar quem lhe faz companhia? Que se lixe o mal que o cigarro lhe faz. Há tanta coisa que lhe faz mal e que ele obrigado a fazer.

Decidiu e já está decidido. Nunca irá deixar de fumar. O cigarro será a sua companhia até que a morte lhe bata à porta!

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ANGELA CABOZ, a miúda gira
Nasceu em Tavira há 49 anos. Desde a adolescência que é uma apaixonada pela leitura, pela escrita, pelo cinema e pela música. Escreve sobre sentimentos e, nas palavras, reflete a maneira de ver e de sentir o mundo. Em 2014, realizou um sonho: a publicação do seu livro «À procura de um sonho». Desde então, tem participado em várias obras coletivas.