Fez-me desejar ser criança para sempre

Texto vencedor | Desafio «Dia Mundial Sem Tabaco»

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Fotografia © Júlia Domingues | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Júlia Domingues | Design © Laura Almeida Azevedo

— ‘Bora experimentar?

Normalmente, começa sempre assim. Quer sejas tu a desafiar-te, quer seja o mundo a gritar que está na altura de seres adulta. É quase como um ritual de iniciação. Começas a fumar para te sentires crescida.

Tal como acontece quando fazes a depilação pela primeira vez. Fá-la para te convenceres de que são tarefas inerentes à condição de seres mulher. E são. Mas não era preciso ser já. Alguns anos mais tarde, percebes o quão tonta foste. Não precisavas de ter começado a fumar. Vais crescer, inevitavelmente. E não era preciso apressares isso. Tal como não era preciso teres feito logo a depilação, pois acabas por constatar que vais ter muitos anos para te fartares de seres crescida e teres essas preocupações de mulher.

E eu não fui diferente. Fiz a depilação, pela primeira vez, cedo demais e fumei o meu primeiro cigarro tarde demais. Tarde demais para ter sido só um cigarro. Foram muitos. Muitos cigarros e muitos anos.

Cumpri, escrupulosamente, todas as etapas pelas quais os adolescentes passam. Fui apanhada a fumar na escola. Fui descoberta com maços de cigarros, pela minha mãe. E fui obrigada a contar ao meu pai que fumava. Fui repreendida. Fui devidamente advertida do quão mal me fazia e fui cruelmente teimosa comigo para achar que, na minha vida, mandava eu. E, por isso mesmo, lá continuei a ser adulta à minha maneira.

Os anos foram passando e a não aceitação dos nossos pais acaba por ser transformar em resignação. Às vezes, o melhor plano de defesa é o ataque. E acho que foi isso que aconteceu comigo.

No jantar de aniversário dos meus vinte anos, aí sim, a comemorar já idade legalmente adulta, o senhor meu pai, fumador, envergou um opulento cigarro, a seguir à refeição, como era seu hábito, enquanto eu tentava desesperadamente fugir por cinco minutinhos para fumar o meu, como também era meu hábito.

— Moça, senta-te aqui com o pai para fumares um cigarro!

Aquela frase acertou-me de tal forma, como se tivesse levado o maior tabefe da minha vida, que foi em cheio.

É assim, em situações destas, que sentes, realmente, a quão criança ainda és. Primeiro, porque te apercebes, finalmente, de que tentares esconder alguma coisa dos teus pais é dos maiores erros que cometes — enganas-te a ti mesma e não a eles. Depois, porque sentes que admitir que fazes uma coisa, que à partida sabes que não é certa, é uma tarefa com a qual ainda não sabes lidar.

Nessa noite, não fui capaz de fumar um cigarro com o meu pai. Nem nas seguintes. E passei muitas noites sem o conseguir.

Mas apareceu uma noite em que fumámos o primeiro cigarro juntos. E falámos. E rimos. E, mesmo assim, ele não deixou de me dizer o mal que me estava a fazer. Mas a sua integridade e sentido de justiça não o deixavam ser severo. Ambos nos fazíamos mal e ambos sabíamos disso.

Depois, seguiu-se a etapa de partilha de muitas conversas, muitos cigarros e muitos conselhos. Daqueles que guardamos para a vida. Daqueles de que recordamos cada palavra, cada opinião, cada sorriso.

Mas o cigarro, que me fez (ainda) mais próxima do meu pai, foi o mesmo que mo tirou. Tirou-me o seu sorriso, a sua companhia, os seus conselhos e a sua traquinice, que tão bem o caracterizava. Ficaram as cinzas, a penumbra e o vazio.

Não fumo há quase sete anos. Por mim, por ele e pelos meus filhos, que um dia gostava de ter.

Partilhar um cigarro com o meu pai foi uma etapa que me fez parecer crescida. Mas ser obrigada a acabar de crescer sem poder partilhar com ele um único sorriso fez-me desejar ser criança para sempre.

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JÚLIA DOMINGUES, a JUX
Tem 38 anos. É solteira e igual a si mesma. Licenciou-se em Direito, sendo Jurista, mas a mais sábia aprendizagem foi aquela que a camaradagem desses tempos trouxe — e que dura, na maioria, até hoje. Tem um refúgio que gosta de pensar que é secreto: Braga, Gerês, a terra dos seus pais. Desde os 25 anos que diz: «Qualquer dia, piro-me de vez para o Norte. Quando for grande.» Mas nunca se pira, apesar de já ser grande. Adora tudo o que seja trabalhos manuais e o desenho é, sim, a sua verdadeira paixão. Tem fobia a andar de avião. E acredita no amor, embora não em coisas especiais. Afinal, não é preciso que ele venha de cavalo branco.