Não basta só amar

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Fotografia © Ryan McGuire | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Ryan McGuire | Design © Laura Almeida Azevedo

Tiveste tudo. E esse tudo, para ti, era nada.

Tudo o que fazia ou dizia era insuficiente. Tudo o que não fazia ou não dizia era criticado. Quanto mais te dava, mais querias e menos valorizavas.

Imensas vezes me debati. Contra ti. Contra mim. Dividida entre o coração e a razão.

Quantas vezes deixei de brilhar para que tu brilhasses?

Que me anulei para que tu te acrescentasses?

Que me calei para que tu falasses?

Que te protegi e defendi contra tudo e todos? Que te segurei para que não caísses, quando já eu própria mal tinha forças para me aguentar de pé?

Quantas vezes acreditei que a força do amor e do carinho te faria ver o bom que é partilhar e não manipular? Aceitar e não impor? Abraçar e não agarrar? Ter-me e não me prender?

Tentei. Por acreditar. Por amar. Por me amares. Por te amar.

Mas não basta só amar. E muito menos amar dessa forma.

Por isso, basta! Acabou!

Agora, vens de mansinho. Com palavras meigas e gentis. Elogios. Abraços e carinhos. Ou com ameaças veladas para não desistir de ti. De nós. Com promessas vãs e tardias. Agora?

Agora, queres dar-me o tudo. Esse tudo que sei que continuará a ser o nada. Esse tudo que, para mim, já não importa nada.

Tiveste tudo. Dei-te tudo. E esse tudo para ti era nada. E tu, que me deste? Nada. E eu que apenas queria um pequeno nada desse tudo que não me davas.

Agora, sou eu o meu tudo. E a ti dou-te nada.

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SÍLVIA SANTOS, a menina-mulher
Diz, por brincadeira, que é a Sílvia e a Aivlis — o seu nome escrito de trás para a frente. Porquê? Porque é de opostos. Voa e rasteja. Ri e chora. Reflete e descontrai. Uma menina-mulher, das que não sabem que sabem e que pensam que não sabem, mas sabem. Forte, mas resistente. Insegura, mas persistente. Com sede de viver, de sentir, de experimentar coisas novas: tanto pratica artes marciais, como salta em queda livre no meio das palavras. O que a sufoca? A monotonia. Anda constantemente em busca de novos desafios — e foi assim que veio aqui parar.