Há dias em que me pesas

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Ilustração © Laura Almeida Azevedo
Ilustração © Laura Almeida Azevedo

Sinto o meu corpo pesado. O meu peito sobe e desce a custo. A melancolia toma conta de mim. Há dias assim. Os dias em que apareces, vindo dos confins da minha mente, lugar para onde te remeti e onde agora vives.

Os intervalos entre as tuas visitas são cada vez maiores, alimentam a esperança de que nunca mais voltarás. Mas não. Voltas sempre. Às vezes, permaneces apenas por breves instantes, mas, noutras vezes, muitas mais, demoras-te e não há nada que consiga fazer para te afastar.

Estes são os dias em que o peso deste amor me tolda os passos e me entorpece os sentidos. São as manhãs em que o primeiro pensamento involuntário do dia és tu, em que me lembras de tudo o que levaste de mim contigo. São as noites a olhar para o nada, à procura de qualquer coisa que me aquiete os muitos porquês e me cale os tantos ses.

Chegas e roubas-me as forças para encarar as horas do dia. Fazes-me parar, hesitar. Não importa onde estou, nem o que faço, nem se estou sozinha ou rodeada de gente. Trazes contigo a inércia e a tristeza, que se agarram a mim e que me sugam a vontade.

Sei que tenho que contrariar tudo isto. Sei que tenho de continuar. Mas aquela sensação, a de uma mão a exercer pressão sobre o meu peito, que me empurra para trás quando quero – preciso – seguir em frente, é desconcertante. Estou cansada de me debater contra uma força maior do que eu. Tento inspirar profundamente, tomar as golfadas de ar que me permitam manter à tona, mas esta dor mantém-me presa ao seu fundo.

Aqui, sentada no chão frio, encostada à parede e abraçada às pernas, com a apatia estampada no meu rosto molhado, pergunto-me, pela milésima vez, «vai passar, não vai?»

Por tudo isto, peço-te que vás e não voltes mais, que deixes de assombrar o meu caminho. Só assim, um dia, poderei sentir-me mais leve.

Há dias assim. Há dias em que me pesas.

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ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.