Um brinde a mim

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Fotografia © Helena Isabel | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Helena Isabel | Design © Laura Almeida Azevedo

O dia estava a chegar ao fim. Aquele pôr do sol parecia convidar. Parei o carro ao pé do mar, levei a garrafa de vinho e um copo. Desta vez, era apenas um brinde a mim e comigo. Sentei-me na areia. A água do mar enchia-me de salpicos como quem beija ao de leve. Tinha sorrido o dia todo. Jamais alguém ia imaginar o desastre que se tinha apoderado do meu interior, e nunca ninguém ia saber.

Dias em que o peso do mundo, sobre nós, é maior do que o que conseguimos aguentar, em que as lágrimas ganham vontade própria e um turbilhão de emoções reprimidas emerge tão de repente, que quase corta a respiração. Dias em que a fortaleza cede, e a alma se afunda, se estilhaça de forma gritante e se fragmenta em pedaços de dor e desilusão. A mesma desilusão que irá, um dia, ser uma cicatriz na alma para fazer lembrar que, afinal, renascer das cinzas ainda é uma possibilidade.

As lágrimas caíram quentes em contraste com o frio que sentia no corpo. Tinha lutado contra elas o dia todo, mas ali podia despir-me de fortalezas. Chorei até não ter lágrimas e aí tive a certeza de que estava mais forte. Sentia-me pronta para enterrar o passado. Servi-me de um copo de vinho e brindei a mim, a um novo recomeço. Afinal, tudo dependia apenas de mim.

Ao deixar a praia, senti-me invadida por uma paz sem igual. Estava livre das amarras do passado e, sobretudo, acreditava que era capaz. Temos sempre mais força do que o que sabemos ter, e é quando a vida nos tira o chão que o descobrimos. Nos perdidos e achados da vida, encontrei sorrisos que não dei, oportunidades que perdi, sonhos que esqueci. E resolvi que, daqui para a frente, nada me vai fazer perder oportunidades de novo.

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HELENA ISABEL, a misteriosa
Nasceu em dezembro de 1983. Diz-se uma «exploradora da vida». Gosta de ler, de escrever e de pintar. Não da pintura dos guaches e dos pincéis. Mas da pintura com as palavras. É apaixonada, irreverente e sensível a tudo o que a rodeia. Prefere um segundo de realismo a uma eternidade de sonhos.