A solidão da minh’alma

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Fotografia © Ryan McGuire | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Ryan McGuire | Design © Laura Almeida Azevedo

A solidão, que me pisa a alma, destrói as entranhas de todos os meus sentimentos. Saber quem sou e julgar não saber. Esconder-me num castelo edificado com as pedras lavadas pela tristeza para fugir deste sofrimento, que me persegue.

Esta solidão rasga-me o sorriso, sem anestesia. Empurra com só um sopro toda a alegria que noutros tempos me vestia. Agora, sinto-me nua no meio de uma multidão que não repara em mim.

A solidão é o ponto final do texto mais curto que há sobre a minha existência. Onde tudo existe e nada faz sentido. Uma caminhada sem vírgulas, feita na recta do meu coração. A poesia que tropeça nas rimas de uma paixão, por amar um rosto que já não conheço. Ela é o reverso da medalha, que julguei ser o diamante que alguém me tinha prometido, mas, afinal, nada mais é do que uma chapa furada e sem qualquer valor que me arrastou para as ruas da amargura, onde, por mais gente que exista à minha volta, eu me sinto sozinha.

Ouço o grito da multidão, mas tudo não passa de um eco solitário que ninguém escuta. Sou a voz de um fantasma, a quem o amor roubou a imaginação para viajar no mundo dos sonhos.

A solidão é a minha companheira no percurso que, todos os dias, faço para abraçar a desilusão. É como andar pelo mundo sem o cheiro das tuas mãos e sentir saudades do brilho sorridente do teu olhar. É lembrar-me que tudo o que o amor me prometeu. Ter na boca o sabor da felicidade, que a paixão já me deixou provar, e olhar para a mesa, agora vazia, e sentir fome, mas não me apetecer comer.

A solidão é saber que o remédio, que me curava, partiu para um destino incerto e que, por mais médicos que se ofereçam para a tratar, nenhum deles tem o que tu tens.

A solidão é isso mesmo. É ter quem se ofereça para me fazer companhia, mas desejar quem não sei por onde anda.

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ANGELA CABOZ, a miúda gira
Nasceu em Tavira há 49 anos. Desde a adolescência que é uma apaixonada pela leitura, pela escrita, pelo cinema e pela música. Escreve sobre sentimentos e, nas palavras, reflete a maneira de ver e de sentir o mundo. Em 2014, realizou um sonho: a publicação do seu livro «À procura de um sonho». Desde então, tem participado em várias obras coletivas.