A família que escolhemos!

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Fotografia © Júlia Domingues | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Júlia Domingues | Design © Laura Almeida Azevedo

No fim de semana passado, comemorou-se o Dia internacional da família. E, coincidentemente, ou não, eu estive com a minha. A celebrar. A celebrar, verdadeiramente.

Mas, desta vez, não foi com aquela família onde existem os almoços tradicionais, que terminam quase sempre com a ida à bica e em que às seis da tarde regressamos a casa, com a sensação que cumprimos, fielmente, o nosso dever social e familiar. O que está estipulado. É assim que deve ser. Afinal, somos família.

Encontrámo-nos quando já passava das oito da noite. Depois de uma semana de trabalho, depois de termos ido deixar os filhos com os avós, com os tios ou com alguém que, durante este fim de semana, substituísse os papéis de pai e de mãe. Só este fim de semana. Depois, tudo voltaria à normalidade. Depois, voltaríamos a ser pai, mãe, a ter horários, a ter rotinas e a reclamar que nunca temos tempo para nada. Depois. Este fim de semana, não.

Este fim de semana é o fim de semana reservado para a família. A família que escolhemos. Aquela que nos conhece melhor do que a nossa própria família, que nos reconhece melhor que nós mesmos e que nos exige que, juntos, sejamos felizes.

A família deste fim de semana não me conhece desde que nasci. Não andou comigo ao colo e nem estava lá quando fiz a primeira comunhão. Mas esta família viu-me crescer. Talvez não num plano físico, mas num plano muito mais importante. Num plano mental. Como não haveria de ver? Crescemos juntos.

Conhecemo-nos meninos-homens e mulheres-meninas, quando ainda tudo era uma descoberta. Entrámos juntos na vida adulta e, hoje, queremos sair juntos na velhice. Juntos experimentámos o verdadeiro significado da palavra família. Aquela que está junta, incondicionalmente. Juntos, já fomos a casamentos, batizados e… infelizmente, a funerais. Onde estava toda a nossa família. E esta família também. Sempre.

Fomos crescendo e, atualmente, pelas próprias vicissitudes da vida, não conseguimos estar juntos tantas vezes quanto desejaríamos. No entanto, todos sabemos que isso não nos abala. Não nos enfraquece. Porque o que é verdadeiro não esmorece. Alimenta-se da força e da vontade de bem-querer.

E é por isso que, todos os anos, durante um fim de semana, compensamos todas as vezes que gostaríamos de ter estado e não estivemos. Compensamos gargalhadas, cantamos músicas, partilhamos histórias, recordamos outras tantas que vivemos juntos e, como as palavras são como as cerejas, quando olhamos pela janela:

— Pessoal, são sete da manhã!

Não faz mal. Este fim de semana, a noite vira dia e a madrugada vai ter o melhor nascer do sol de sempre. Este fim de semana, jantamos às onze da noite, brindamos ao meio-dia e seremos novamente adultos só à meia-noite. Este fim de semana, voltamos a ser meninos-homens e mulheres-meninas, como quando nos conhecemos naqueles anos de faculdade. Como quando, sem promessas, nos fomos mantendo inseparáveis. Como quando brindávamos à saudade mesmo estando, todos os dias, juntos.

Hoje, continuamos a brindar à saudade. Vinte anos depois.

Vinte anos depois, volta a ser tudo igual. Pelo menos, este fim de semana. Teremos os mesmos sonhos, faremos os mesmos brindes e conservaremos as mesmas promessas.

No fim de semana passado, comemorou-se o Dia internacional da família. E eu, coincidentemente, ou não, estive a celebrar com a minha.

Hoje, mais do que nunca, faz sentido acreditar que afinal, não há coincidências!

 

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JÚLIA DOMINGUES, a JUX
Tem 38 anos. É solteira e igual a si mesma. Licenciou-se em Direito, sendo Jurista, mas a mais sábia aprendizagem foi aquela que a camaradagem desses tempos trouxe — e que dura, na maioria, até hoje. Tem um refúgio que gosta de pensar que é secreto: Braga, Gerês, a terra dos seus pais. Desde os 25 anos que diz: «Qualquer dia, piro-me de vez para o Norte. Quando for grande.» Mas nunca se pira, apesar de já ser grande. Adora tudo o que seja trabalhos manuais e o desenho é, sim, a sua verdadeira paixão. Tem fobia a andar de avião. E acredita no amor, embora não em coisas especiais. Afinal, não é preciso que ele venha de cavalo branco.