Hoje, chorei

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Design © Laura Almeida Azevedo
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Não. Hoje, não. Não escrevo um conto. Conto, antes, um pedaço de mim. Da minha dor. Do meu sofrimento. Não. Hoje, não. Não vou ser forte. Não vou esconder.

Hoje, chorei.

Na calada da noite. Um sonho. Um gemer. Um acordar agitado. Não me recordo do quê, mas foi contigo que sonhei. Saudades. Tenho tantas saudades.

O tempo ajuda. O tempo cura. É o que dizem. E o entretanto? O que faço eu com o entretanto do tempo, enquanto o tempo não passa?

Hoje, chorei.

Na calada da noite. Recordei. Momentos partilhados. Divertidos. De carinho. De amor. Recordo-me de ti a cantar «o mar enrola na areia». Com aquela tua voz fininha, muito fininha. Aliás, devias estar a cantá-la bem juntinho ao meu ouvido. Naquele dia em que partiste. Esta música entoava na minha cabeça. Eras tu, de certeza!

As idas à praia. Primeiro, eu e tu. Depois, eu, tu e o mano. E tu, avó, que detestavas praia. Mas fazia bem aos teus meninos. E tu lá ias. De autocarro. Uma eternidade até chegar à Caparica. Os gritos autoritários, de aflição: «não vás para tão longe! Ainda te afogas»; «sai da água. Já estás a ficar roxa! Vem comer agora». E a famosa bola de berlim com areia à mistura, como manda a tradição. Bola de berlim. Praia. Tu.

Mulher grande. Guerreira. Preocupada com tudo e com todos. Um coração enorme. Sempre disponível para ajudar. Para amar. Para perdoar. E para gritar. Sim, quando ainda tinhas voz, gritavas p’ra caramba. Maioritariamente, gritos de alerta, de quem se intrometia um pouco demais, por vezes, e de quem pensava e acreditava que sabia, sempre, o que era melhor para nós.

«Um dia, quando eu morrer, vão sentir falta do que vos falo.» Dizias tu. E não é que tinhas razão?

Hoje, chorei.

Na calada da noite. Constatei. Tu estás em todo o lado. Tudo me lembra de ti. Tu fazes parte de mim. Sou uma imensidão de bocadinhos de ti. O altruísmo. A teimosia. A persistência. O apego aos locais. A dedicação. O ser amiga. O saudosismo… E tanto, tanto mais.

O tanto que me ensinaste. Em tanto do meu dia a dia, vejo-te. E oiço-te. Ainda ontem. Comprei uma sopa. Não a pude comer logo. «Queres manter a sopa quente, Sílvia? Embrulha o recipiente num pano da loiça». Eu ouvi-te e comi a sopa quentinha.

Sorrio. Mas o meu coração chora. Dor invisível, que corrói. Que não mata, mas mói.

Por vezes, penso que ainda aqui estás. A trezentos quilómetros de distância. A três horas de carro. Nessa Beira alta que acolheste no teu coração de alfacinha. Onde gostavas de estar, no bom tempo, sentada no quintal. A ouvir os passarinhos. A observar os pinheiros. A conversar. A ver-nos brincar. A rir. A receber quem te visitava. Sempre com comida na mesa. E ai de quem não comesse!

Quero lá voltar, avó! A esse sítio encantado! Aos teus braços. Ao teu colo! Mas tu não estás…

Não. Hoje, não. Não vou ser forte.

Hoje, chorei.

Aninhei-me, sozinha, na minha cama. Na minha mente, a tua expressão quando partiste. Serena, bonita, tão tranquila. E a minha alma acalma um pouco. Sinto um calor a rodear-me. Do cobertor? Do meu próprio corpo? Ou serás tu? O teu abraço. O teu amor.

Esse amor que nos deste. Que em nós permanece. Nos fortalece e nos faz viver. E, enquanto nós vivermos, tu viverás.

Sorrio. Imensamente, grata. Se hoje choro, foi pelo muito que me deste. Suspiro. Adormeço.

Mas hoje, hoje chorei. Hoje, convosco, partilhei. Lágrimas que aqui ficarão. Derramadas nas palavras e não somente no meu coração.

Hoje, chorei.

Do que ri contigo. Do que rio contigo.

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SÍLVIA SANTOS, a menina-mulher
Diz, por brincadeira, que é a Sílvia e a Aivlis — o seu nome escrito de trás para a frente. Porquê? Porque é de opostos. Voa e rasteja. Ri e chora. Reflete e descontrai. Uma menina-mulher, das que não sabem que sabem e que pensam que não sabem, mas sabem. Forte, mas resistente. Insegura, mas persistente. Com sede de viver, de sentir, de experimentar coisas novas: tanto pratica artes marciais, como salta em queda livre no meio das palavras. O que a sufoca? A monotonia. Anda constantemente em busca de novos desafios — e foi assim que veio aqui parar.