Não te disse já que gosto muito de ti?

Carta à Laurinha

852
Fotografia © Fernando Jorge | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Fernando Jorge | Design © Laura Almeida Azevedo

Olá, Laurinha!

Gosto tanto de ti!

Ainda há pouco te deixei e já tenho um mar de palavras entre nós. Ou deverei dizer temos?

Vim aqui para ver este mar e procurar-te nas ondas que vêm quebrar-se quase aos meus pés. Este mar das Pedras Negras tem o mesmo sabor do teu mar de S. Pedro e as mesmas areias que se transmutam, entre um verão e outro inverno, em cubos de triliões de resíduos que correm praias e mundos. Este é o mar de que tanto me falas e que me traz as saudades das palavras que me dizes. Das palavras e dos intervalos de silêncios com que as entrecortas.

Mesmo quando me falas de coisas lindas e banais, sinto a brotar de ti, com a mesma impetuosidade, a força das quedas de água do Gerês e os ventos que estas ondas e este mar, às vezes, me trazem. Mesmo que uses palavras que me cheiram a provocações e tenhas que ouvir-me dizer-te que elas não fazem parte do meu dicionário de sentimentos. Então, achas que courista é uma coisa que me digas, obrigando-te a soletrá-la e a explicá-la? Eu sei que te estás a vingar de te ter dito que o teu chá me cheirava a flores, pedindo-te que tirasses o bule de debaixo do meu nariz! Mas não me obrigues a chamar-te revanchista – sabes o que isso é, Laurinha? –, porque esta é uma carta de amor e não uma declaração de guerra. Não te disse já que gosto muito de ti?

Não disse? Então, experimenta formatar a cor das primeiras linhas da minha carta, com outra cor, diferente da branca. Então, não to tinha já dito? Vês?!

Perdoa brincar contigo. Sei que não dás valor quando te respondo «claro que gosto de ti» e adoras quando te digo «gosto tanto de ti» sem que mo perguntes! E o que pensas que sinto quando me dizes «gosto tanto de ti»? É como se o céu e o mar se aproximassem e eu pudesse tocar os dois ao mesmo tempo. É como se as águas do Gerês brotassem de ti, em mares imensos, e um orgasmo me eletrocutasse de prazer! É como se o mundo nascesse dum grito e os nossos corpos se fundissem num só. E caíssem fundidos, à espera de serem reciclados, depois de passada a eternidade daquele momento. Não! Não voltes a dizer-me que só te falo de fenómenos metafísicos, porque há momentos que só assim se descrevem. Lembras-te da última vez que adormecemos à lareira, enroscados um no outro e me disseste, ao olhar-nos no espelho da sala:

— Vasco? Será que podemos ficar sempre assim?

E de eu te ter dito:

— Laurinha! Este amor é mesmo assim. Dois em um, até à eternidade!

E de me teres perguntado, depois de um instante de espera:

— Vasco! O que é a eternidade?

E de eu te ter respondido, depois de ter olhado também para o espelho, de ter inspirado fundo e te ter olhado nos olhos:

— Laurinha! No Mogadouro, uma terra distante nas faldas da Estrela, há uma penha enorme, do tamanho dum navio. De cem em cem anos, passa um passarinho que nela vem afiar o bico. Quando deste modo a pedra estiver gasta, terá passado um dia, um único dia, da eternidade.

E quase me engasguei de prazer com a resposta que te havia dado!

Voltei a olhar-nos no espelho e tu nem te mexeste. Passados uns instantes, longos, libertaste-te do meu abraço e ficaste sentada, com os teus seios nus a fitarem-me desafiadores, em promessas de amor. E disseste com desprazer:

— Só um dia, Vasco?

E eu penso que ainda vês os passarinhos e tens pena de me ter perguntado o que era a eternidade.

Laurinha: agora, o sol está a pôr-se no ocaso, como um disco incandescente. Ainda não toca o mar, mas não tardará muito. A luz da tarde diminuiu abruptamente e o Logan adormece no copo. As teclas desaparecem sob os meus dedos e o astro-rei… já mergulhou no mar!

Que tempo breve! As cores do ar mudaram e o mar continua, teimosamente, a castigar a areia. Gotas grandes de uma chuva chata partem-se nos vidros das janelas do café. Já são dezoito horas e só um concurso da TV4 corta o silêncio deste fim de tarde.

E eu lembro-me de ti. E das palavras lindas que me escreves também. E do som a que soam as ternuras que me dizes. E é assim, num som cristalino de copos a tocarem-se, que te vou recordar quando o nevoeiro se dissipar. Lembras-te daqueles nevoeiros da Torre, que desaparecem mal acabam de nos envolver? O teu não será mais longo. Irei procurar-te nos caminhos que percorreres e numa curva dum deles vou assaltar-te de desejos!

Olha-me nos olhos e diz-me se há razões para teres medo da eternidade, ternura. E vais ver, no fundo do verde dos meus olhos verdes, que tremo quando te falo, quando te olho, quando te ouço. Que choro quando o mar te enche os olhos e que sou feliz quando te ris. E que adoro estar contigo e que, mesmo que não o percebas, o tempo tem dois pesos e duas medidas: uma quando estou contigo, breve como os instantes finais de um pôr do sol e outra agora, quando temos um mar de palavras a separar-nos.

E imagino-te a cavalgar sobre o mar, de encontro a mim. E eu a sair, a correr, para te receber nos braços e te aquecer. Mesmo que hoje não haja lareiras e amanhã seja só sábado.

O céu enegreceu e uma telenovela da tarde começou. Está na hora de te esquecer e de pagar o café e o uísque. Amanhã vais voltar. Vou compor-te a golinha de virados e dizer-te o que não preciso que me perguntes:

— Gosto tanto de ti! Meu amor!

Comments

comments

PARTILHAR
Artigo anteriorAma-te
Próximo artigoOs anjos também têm Alzheimer
FERNANDO JORGE, o biólogo
Cozinheiro, aos 12 anos. Artista de teatro, fundador do grupo Madrugadores do Adro, em Ribeira de Frades, aos 16 anos. Praticante de atletismo na AAC. Professor na Escola Industrial e Comercial da Marinha Grande, aos 21 anos. Começou a escrever o livro Poemas de amor e de raiva, aos 22anos, e ainda continua. E continua.