Afinal, ainda estás comigo

1109
Fotografia © Carina Maurício | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Carina Maurício | Design © Laura Almeida Azevedo

Desde o primeiro dia que começaste a frequentar as aulas de ténis que me prendeste o olhar. Tinhas um jeito doce, um olhar profundo e um sorriso lindo. Introvertido e concentrado nas aulas, eu tentava interagir contigo. Passava-as a falar e a dizer piadas. Tu apenas esboçavas um sorriso.

De repente, a terça-feira tornou-se o dia mais esperado da semana, simplesmente porque era o dia em que te via. Até que começaram os torneios ao fim de semana. Era a oportunidade para te enviar um pedido de amizade no facebook, a dica perfeita para meter conversa contigo: «Olá. Vais ao torneio este fim de semana?» «Sim», respondeste tu. Aquela pergunta levou a outra e a outra, a curiosidade mútua e a uma troca de mensagens longa. Tão longa que passámos de não saber nada um do outro a sentirmos uma cumplicidade imensa. Cumplicidade essa que se veio a confirmar e a acentuar no dia do torneio. Era como se já nos tivéssemos conhecido noutra vida.

Eras simpático, doce e gentil tal como eu tinha imaginado. Mas a tua humildade, compaixão, maturidade e respeito surpreenderam-me.

Terminamos o dia do torneio a jantar juntos, a deixar a comida arrefecer e a sermos quase expulsos do restaurante, entre tanta conversa, entre tanta curiosidade e interesse pelo outro.

Inesperadamente, ocorreu-me convidar-te para ver um filme, porque não queria que aquela noite terminasse. Deixaste-me admirada ao responder afirmativamente. Nesse momento feliz decidi partilhar contigo o meu filme preferido e deixei-me levar por aquela alegria, que me emociona ao ponto de ficar com lágrimas nos olhos. Encostei a minha cabeça no teu ombro. E senti-me como se o mundo fosse todo ali, como se o tempo parasse, como se fossemos só eu e tu!

Quando terminou o filme, despediste-te de mim com um abraço, em dois segundos, e foste embora.

Nesse momento, todas as minhas dúvidas e receios voltaram. Pensei que te afastara para sempre. Pensei que devia ter ido com mais calma. Afinal, tu não eras um rapaz qualquer.

Explicaste-me, mais tarde, que ficaste no carro, parado, vários minutos a pensar voltar, mas que estavas tão confuso que a decisão acertada era ir. E, por isso, apanhaste-me de surpresa quando quiseste estar novamente comigo.

Decidi no meu coração que não ia estragar tudo, que não ia tentar nada. Tinhas decidido que, agora, era a tua vez de agir. Sim, foste tu que me beijaste!

Não és a pessoa mais romântica do mundo, daquelas de escrever mensagens queridas. És romântico nas atitudes, nas mensagens e telefonemas, na partilha do teu mundo comigo. És romântico quando cruzas o teu olhar com o meu, no teu jeito de me beijar, no teu abraço que me envolve toda a noite. És romântico na forma como aprecias a minha comida, na forma como te preocupas e cuidas de mim.

No último fim de semana grande, foste viajar com um grupo de amigos. Mais uma vez, a minha insegurança, alimentada por muitos relacionamentos falhados, veio à tona…

Mas quero manter este relacionamento saudável e livre, baseado em confiança e respeito. E, por isso, liberto-me desses pensamentos negativos, tento não pensar.

Passado o fim de semana, recebo uma mensagem tua: «Já aterramos no Porto». Sorri. Afinal, ainda estás comigo!

Comments

comments

PARTILHAR
Artigo anteriorVoltei!
Próximo artigoComo se desiste de quem mais amamos?
CARINA MAURÍCIO, a fotógrafa
É budista e conservadora-restauradora. É de riso e choro fáceis. Tem tanto de sensível, quanto de corajosa e lutadora. Adora fotografar, jogar ténis e viajar. Viciada em comida, é fã de comida italiana. Gosta de dormir, de café, de chocolate. Dançar? Pode ser a noite toda. Mas também gosta de ficar na ronha, em casa, entre filmes e pipocas. Adora o som da chuva a cair no inverno e o som do mar em dias de verão. Campos floridos enchem-lhe o olhar, assim como as cores das folhas do outono. Apaixona-se facilmente e é uma apaixonada pela vida. Uma geminiana pura.