Voltei!

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Fotografia © Anabela Mata | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Anabela Mata | Design © Laura Almeida Azevedo

Pai, mãe, estou aqui.

Chove.

O caminho, entre a escola primária e a casa, pareceu-me desta vez tão pequeno. Lembro-me do primeiro dia de aulas em que, com pouco mais de cinco anos, ouvi: «Vais sozinha porque tens de aprender e perder o medo!» Ainda hoje me lembro disso nos caminhos que a vida me faz percorrer sozinha.

A casa já pouco conserva do que era, já pouco conserva do que ainda é cenário nos meus sonhos. Mas o alpendre, onde fazia os meus festivais da canção, esta cá.

A rampa onde eu e o cão fazíamos corridas. A garagem onde passava horas a ver o pai fazer coisas!

O jardim, sempre bem tratado pela mãe, já não existe. A rua, a mesma onde eu andava descalça, porque era maria rapaz e me apetecia, já não é de pedra! Já não há placa a dizer «cuidado com o cão».

A padaria ainda existe. O Areias já não é merceeiro. O talho mudou de nome. A quinta, onde começou a minha história, agora tem portões fechados. Está tudo tão diferente…

Sentei-me a escrever este texto aqui no café, depois de trocar algumas palavras com quem se interrogava de onde eu tinha aparecido.

Olham para mim fixamente e não encontram traços conhecidos em quem digo que sou, porque me fiz mulher de traços próprios e únicos.

Já não sou a miúda franzina, de nariz arrebitado, que andava descalça pela rua, sempre de sorriso rasgado para provar aos outros que era diferente. Sou a mulher que sorri, porque já não precisa de provar nada a ninguém. Dizem que o sorriso faz lembrar quem sou, depois de olharem melhor!

Sou fruto daquilo que vocês me injetaram nas veias e não de um qualquer sangue Arh+.
Sou vossa, feita e criada à vossa imagem e não à de um cordão umbilical que me prendeu.
Sou a Bella, filha da Aninhas e do Mata (que todos lembram) e não a coitadinha da miúda que a rameira da terra, um dia, abandonou e deu para adoção…

Pai, mãe… voltei a casa!

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ANABELA MATA, a bella
Ela é uma mulher ativa, vegetariana e adepta da vida saudável. Por isso, adora cozinhar, dançar, viajar e, sim, escrever — para ginasticar as emoções. Escreve com o coração: esse, que sente, ama, sofre, é feliz. Adora sorrir. Quase se poderia dizer que ela é a Bella porque é assim que vê a vida.