O amor é lindo, mas só às vezes

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Design © Laura Almeida Azevedo
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O amor é lindo. Mas só às vezes.

O amor faz-nos querer voar sobre as casas e desejar ter filhos ao fim de seis meses. O amor torna-nos mais felizes, mais sensíveis e mais despertos para o romantismo da vida. De repente, as músicas fazem tanto sentido. Faz-nos até encontrar romantismo onde ele não existe. A vida é tão mais bonita quando se ama. E o sol? Oh, o sol brilha tanto quando se ama.

O amor acontece e a vida faz sentido. Toda ela. Todos os caminhos tortuosos por que passámos. Todas as choradeiras de baba e ranho, a ver filmes românticos — e a sentirmo-nos sós, infelizes, com tanta vontade de vivermos uma história de amor assim. Todas as insónias vazias em que julgámos nunca mais voltar a amar. Todas as vezes que tivemos medo de nos entregarmos ao que sentimos — o tanto que sentimos — por alguém que, não sendo um estranho, conhecemos apenas há tempo suficiente para amar. E nem sempre precisamos de muito tempo para amar alguém.

O amor acontece e a vida tem só dias e meses de sol, mesmo quando chove. É tardes inteiras de abraços, de beijos roubados entre promessas doces, que quase queimam o céu da boca de tão, tão doces que são. O amor faz-nos querer partilhar o mundo. Faz-nos perder o medo de mostrar o pior e o melhor de nós — e, apesar disso, faz-nos desejar, todos os dias, ser melhores do que somos. Quando erramos, quando desiludimos quem amamos, sentimos uma acidez nos olhos: são as lágrimas a quererem rebentar num choro. Porque magoar o outro é magoarmo-nos a nós.

O amor é uma sinfonia de violinos que toca dentro do nosso peito. Se fecharmos os olhos, conseguimos ouvi-la. Toca suavemente. Embala-nos. Comove-nos. Porque, sim, o amor comove com a partilha, a proteção e a coragem que nos faz sentir.

O amor acontece a dois e faz a vida ser possível. Sim. Tudo, na vida, nos parece possível, quando somos amados com a mesma intensidade e entrega com que amamos. E é. Tudo é possível.

Mas e quando o amor não é correspondido? Quando o amor acontece não a dois, mas apenas a um?

Quando o amor acontece não a dois, mas a um, o amor torna-se na pior coisa que nos poderia ter acontecido na vida — é o que nos dizemos, pelo menos. Porque dói, corrói, destrói, dilacera. Porque, de manhã, ainda mal abrimos os olhos e já engolimos cinco farpas de fogo, que crepitam, como agulhas, na nossa garganta — e, ainda por cima, somos obrigados a sorrir à vida, enquanto as engolimos. O amor bate-nos: violentamente. Por dentro. Chicoteia as nossas emoções. Grita em nós e para nós. Aos berros. O amor perde as asas e a poesia todas — e a sinfonia de violinos, que deveria tocar no nosso peito, chora. Chora muito, tudo. E, por mais que chore muito e que chore tudo, há sempre lágrimas ainda por saírem. Há sempre mais dor de onde esta veio. Há sempre mais angústia. E desespero.

Quando o amor acontece não a dois, mas apenas a um, a vida deixa de acontecer. A vida para. A nossa. Tudo para dentro de nós. Ficamos imóveis, quietos, a contar os minutos para não desatarmos num berreiro com a vida. Somos incapazes de decidir o que vai além dos próximos cinco minutos: «Não me perguntem o que quero jantar, que eu estou capaz de morrer, agora mesmo, de amor.» Queremos que a vida fique intocável, à espera de que o amor se decida — e que decida o que vai fazer connosco. Até lá, queremos que o mundo se cale. Todo. Até conseguirmos ser capazes de juntar mais de três palavras numa só frase — que não seja «amo-te», «gosto tanto de ti», «dói-me tanto», «porquê a mim?», «juro que nunca mais volto a sentir isto», «que puta de vida a minha» e «não aguento mais». E amamos. E gostamos tanto. E dói-nos tanto, mas tanto. E tanto. Mas aconteceu-nos porque é assim: porque o amor acontece-nos quando menos esperamos. É isso que o torna tão especial.

Quando o amor acontece não a dois, mas a um, a vida morre. Tudo em nós morre. Dramatizamos. Morrer não é isto. Morrer é ter uma doença grave e incurável. Morrer é não estar vivo. E isto é, seguramente, estar vivo. Isto é sentir tudo num turbilhão. Isto é ter ganas de amar e de chorar ao mesmo tempo. Isto é sofrer e sentir a dor em cada milímetro da nossa pele, em cada centímetro cúbico da nossa carne. Isto é fervilhar. Sim, isto é estarmos vivos. Isto é sermos capazes de sentir o mundo inteiro a explodir em nós. Mas, apesar disto, sim, a vida morre em nós. E nada mais queremos dela. Não agora, enquanto dói, enquanto agoniza. Não agora, enquanto arde. Não agora, enquanto as recordações estão tão presentes. Não agora, enquanto ainda sentimos tanta falta. Não agora, enquanto ainda sonhamos acordados com o abraço. Não agora, enquanto não temos coragem para nos libertarmos do que sentimos. Não agora, enquanto ainda acreditamos. Sim, enquanto ainda acreditamos, apesar de tudo.

A vida morre. Tudo morre em nós.

Mas não pode morrer.

Porque, quando o amor acontece só a um — ou de forma diferente a dois —, quando o amor não tem força suficiente para suportar tudo, quando o amor não é uma escolha, não vale a pena. Não merece as nossas lágrimas, a nossa angústia, o nosso desespero. Não merece que acreditemos que a vida acabou — mesmo não tendo acabado. Não merece que paremos a vida e que fujamos dos momentos que nos querem, agora e já. Porque, se o amor a dois não acontece com a mesma certeza e coragem para ambos, não é amor que chegue.

Porque, quando se ama, pode doer. Pode-se ter dúvidas, medos e inseguranças. Quando se ama, pode-se ter medo. Medo de sofrer. Medo de arriscar. Medo de dar tudo. Medo de ser feliz — e infeliz. Quando se ama, pode-se precisar de tempo para ganhar coragem para viver o turbilhão que aí vem. Porque amar é um turbilhão. Fazer crescer o amor, um turbilhão muito maior. Mas, quando se ama, chora-se, estrebucha-se, grita-se. Às vezes, até se ameaça que não se vai amar mais, que acabou. Mas não se desiste. Nunca, nunca se desiste.

Quando se ama, aguenta-se tudo. O que veio, o que foi e o que há de vir. O que se imaginou e o que nunca se imaginou. O que nos torna melhores e o que nos mostra o pior de nós. Quando se ama, perdoa-se. Quando se ama, a dor do outro é a nossa dor. Quando se ama, não há silêncios que não sejam momentâneos — porque até os que amam têm direito a eles. Quando se ama, quebra-se regras. Arrisca-se. Sonha-se com o impossível — e, de repente, o impossível acontece sem darmos por isso. Quando se ama, cantarola-se ao som dos violinos, sabendo que só quem ama tem o privilégio de passar pela vida ouvindo-os. Quando se ama, não há desculpas possíveis para não se lutar pelo que se sente.

E, mesmo que se queira ir embora, mesmo que se chegue a ir embora, nunca se vai embora de vez. Volta-se. Regressa-se. E percebe-se que o amor foi — e é — a melhor coisa que nos poderia ter acontecido na vida. Sê-lo-á sempre.

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LAURA ALMEIDA AZEVEDO, a desafiadora
37 anos. Uma dose saudável de loucura. Gosto por tudo o que é novo, diferente, ousado, criativo. Apaixonada por palavras, desenho e comunicação. Licenciada em Jornalismo. Designer gráfico, ilustradora e autora do livro e do blogue «Apetece(s)-me». Incapaz de viver sem a luz do sol, mas completamente rendida ao silêncio da madrugada. Viciada em música, chocolates e varandas. Fascinada por cidades, pessoas e emoções. Nunca diz que não a uma discussão construtiva: afinal, é a conversar que as pessoas se entendem. Em miúda, o seu jogo preferido era o Jogo da Verdade.