Afinal, já não quero emigrar!

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Fotografia © Júlia Domingues | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Júlia Domingues | Design © Laura Almeida Azevedo

Ontem, fui jantar com uns amigos.

Tenho por hábito fazê-lo sempre que posso e a disposição deixa. Até porque tento ser uma fiel seguidora daquela máxima, que nos adverte, e bem, para o facto de o melhor da vida ainda ser uma mesa recheada de amigos.

Ontem, estive numa mesa recheada de amigos.

No decorrer do jantar, confessava uma amiga minha que uma colega de trabalho, destacada há pouco tempo para um cargo fora de Portugal, se estava a ver a braços com situações do quotidiano que estariam a por em causa se todo o esforço diário compensaria o facto de estar num cargo, onde tinha à sua disposição casa com piscina, motorista e uma posição de destaque na estrutura empresarial, onde presta serviços.

— Ontem, estive cinco horas sem luz.
— Fui ao supermercado e não havia mais de metade das coisas de que precisava.
— O motorista, hoje, voltou a esquecer-se de mim (…).
— Tive de comer uns ovos mexidos à luz das velas, porque não tinha luz para ligar a varinha mágica e acabar de passar a sopa

Ia relatando a minha amiga acerca dos desabafos da sua colega.

E o que acabara de ouvir deixou-me a pensar.

Mas, desta vez, não fiquei a pensar nas condições laborais e pessoais a que todos os nossos emigrantes, por vezes, têm de se sujeitar, em prol de um sonho; de uma vida melhor que nunca mais chega; de um reconhecimento que nunca é o suficiente para o que, de facto, merecem; do que deixaram para trás e do sentimento de culpa que agora ocupa o lugar.

Não. Desta vez, não foi isso que me fez pensar.

O que me deixou a pensar foi o facto de olhar para o lado e ver que, num dia de semana, sem qualquer motivo, ali estávamos nós. Só porque sim. A jantar, a rir e a pedir mais uma garrafa de vinho. A segunda. «Que se lixe, amanhã já é sexta.»

Só porque o podíamos fazer.

Todos os dias nos queixamos, gratuitamente, porque temos de nos levantar a horas pornográficas, porque temos de encarar filas de trânsito intermináveis, porque levámos com a má disposição da pessoa que passou à nossa frente na fila do supermercado ou porque simplesmente o sistema nacional de saúde não funciona.

— Seis meses à espera por uma consulta? Inadmissível!

E temos razão.

As coisas não são perfeitas. São falíveis. Demoram a acontecer. Há muitas desigualdades. Ainda há muito a fazer. E é sempre possível fazer melhor.

Mas e o que, gratuitamente, temos e não valorizamos?

Independentemente do esforço e sacrifício que cada um de nós faz, que não é propósito, aqui, estar a quantificar, o que temos como certo é a liberdade em comandar, estoicamente, a nossa vida. E isso não tem preço.

Apanhaste uma fila infernal para o trabalho, hoje? E quantas vezes, no final do dia, te borrifas para o resto e vais descomprimir até à praia mais próxima? Nem que seja só por meia hora. Depois, sabes que voltas com os pulmões renovados de oxigénio, pronto para a próxima batalha.

Quantas vezes já decidiste, em cima do joelho, que é no próximo fim de semana que vais conhecer aquela parte da Costa Alentejana, que ainda não conheces?

Que chatice. Vais ter de optar só por dois dos 15 festivais de verão que, atualmente, fazem parte do circuito do nosso país, porque há que fazer opções?

Já não jantas tantas vezes na rua, porque a vida não está fácil para ninguém, mas tenho a certeza de que encontraste forma de suprires isso, quando optaste, brilhantemente, por provares aos teus amigos o quão boa cozinheira és, afinal.

O que, de facto, me deixa a pensar é que ainda vamos tendo o privilégio de ir fazendo todas estas coisas, de forma mais ou menos frequente, ajustando prioridades e fazendo escolhas diárias e isso ninguém contabiliza no seu ordenado no final do mês.

Podemos chegar ao fim do mês com muito pouco dinheiro, ou mesmo nenhum. Pode ser impossível amealhar uns trocos extra, porque estamos num país onde ainda falta fazer quase tudo.

Mas, enquanto eu poder ter o privilégio de ter uma mesa recheada de amigos, só porque sim, enquanto eu puder for ao supermercado aproveitar a promoção de 50% de desconto em cartão, enquanto eu puder ter-vos junto a mim, por perto, não deixarei por cá o sentimento de culpa, em vez de mim.

Isto pode não ser perfeito, mas uma mesa recheada de amigos ainda continua a ser o melhor da vida.

E venha a terceira garrafa de vinho, que amanhã já é sexta!

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JÚLIA DOMINGUES, a JUX
Tem 38 anos. É solteira e igual a si mesma. Licenciou-se em Direito, sendo Jurista, mas a mais sábia aprendizagem foi aquela que a camaradagem desses tempos trouxe — e que dura, na maioria, até hoje. Tem um refúgio que gosta de pensar que é secreto: Braga, Gerês, a terra dos seus pais. Desde os 25 anos que diz: «Qualquer dia, piro-me de vez para o Norte. Quando for grande.» Mas nunca se pira, apesar de já ser grande. Adora tudo o que seja trabalhos manuais e o desenho é, sim, a sua verdadeira paixão. Tem fobia a andar de avião. E acredita no amor, embora não em coisas especiais. Afinal, não é preciso que ele venha de cavalo branco.