Poema para Laurinha

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Fotografia © Fernando Jorge | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Fernando Jorge | Design © Laura Almeida Azevedo

Por que são as esperas tão longas
e tu tardas?

E nem reparas
que esta chuva, que escorre p’las janelas,
são lágrimas dum amor que não me mata,
mas consome…

Não reparas
que a água, que escorre das janelas,
são angústias
e são beijos e são gotas de saudades
e pedaços de desejos.

Esta chuva é de promessas,
de incertezas,
de silêncios e de enigmas,
de palavras que torturam e nos matam.

E, quando as tuas palavras chegam,
a chuva faz ainda mais barulho nos vidros das janelas
e o coração bate mais depressa que os 54 Mbps
do wireless,
enquanto eu te procuro e te persigo nas esferas concêntricas
onde corres e foges e gritas,
sem sair delas.

As tuas palavras trazem rumores de vulcões e tempestades,
de rios e de mares, porque são tuas e são belas
e transportam torrentes de lavas e de ventos e mil águas…
e confundem-se com a chuva que bate nas janelas.

Por que são estas esperas tão longas e demoras?

Por que entras e sais, em mil segundos breves
e dizes ciao e adeus
e até logo, e até já, e vou sair e vou embora,
e tardas em chegar?

A praia velha
está cheia de despojos e madeiros e resíduos
dos milhares de beijos que te dei,
das promessas que fizeste,
dos sorrisos que sorrimos e das palavras que troquei
contigo, que trocámos e vendemos e te dei e ouvi de ti!

E só o Majestic, apenas ele,
foi testemunha silenciosa daquele beijo que te dei
porque naquela tarde fui feliz.

Meu amor,
quando chegamos a Paris?


PS: Laurinha e Vasco morreram a caminho de Paris, a 4 de Março de 2010, num acidente de aviação. Na mala de Vasco, trocada por engano no Aeroporto da Portela, estava este poema, dentro de uma garrafa de cognac, vazia. Foi devolvida por um passageiro espanhol, de Badajoz, que a reenviou ao destinatário. Badajoz, curiosamente, a única cidade estrangeira que Laurinha tinha visitado antes.

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FERNANDO JORGE, o biólogo
Cozinheiro, aos 12 anos. Artista de teatro, fundador do grupo Madrugadores do Adro, em Ribeira de Frades, aos 16 anos. Praticante de atletismo na AAC. Professor na Escola Industrial e Comercial da Marinha Grande, aos 21 anos. Começou a escrever o livro Poemas de amor e de raiva, aos 22anos, e ainda continua. E continua.