Éramos tão felizes e não sabíamos

Texto vencedor | Desafio de escrita «Dia internacional da família»

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Fotografia © Dora Nunes | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Dora Nunes | Design © Laura Almeida Azevedo

Se há pessoas que marcam a nossa vida e a nossa história, tu foste, sem dúvida, um marco na história da nossa família que infelizmente nos vê de lá, da outra dimensão, do lado branco e brilhante.

A cidade amanheceu, fria e branca, coberta por um manto de gelo. Era um inverno tão frio. Lembro-me de que o telefone tocou pouco passava das 7h da manhã e não era normal isso acontecer a um Domingo.

Lembras-te dos Domingos à tarde, quando nos encontrávamos todos naquele café da marginal? Era o ponto de encontro e isso foi há tantos e tantos anos atrás. Ali, ficávamos todos, sentados a conversar, e ríamos, mas ríamos tanto. Não, não sorríamos. Riamos muito! Consigo ouvir de forma nítida as nossas vozes, que ecoavam no café. Às vezes, só nós ficávamos até à noite.

A partilha, a união e o amor, entre nós, não tinham limites.

Eu, uma menina de cinco anos, lembro-me de te admirar sempre que falavas. Sabes aquele elemento mais novo dos elementos adultos, que nos trata de forma mais acriançada, mas que, ao mesmo tempo, sabe falar como um adulto? Era confuso, sabes. Mas era tão bonito o que sentia sempre que vos ficava a observar na partilha de problemas e até de conselhos, que irmãos mais velhos passavam para irmãos mais novos ou vice-versa. Era bonito. E, agora, acho muito mais bonito, mas já te explico melhor.

Fui-me habituando a uma união única, peculiar e tão segura de si mesma. Era inabalável, pura e simples!

Lembras-te das vezes que partilhámos, em nossa casa, as passagens de ano ao som de músicas da moda? Era de mais, não era? Espaços tão pequeninos, mas tão grandes de espírito, nos quais fazíamos uma grande festa, só porque estávamos todos juntos. E dançávamos e dançávamos muito!

E o Natal? Era mágico mesmo, não era? Não nos entendíamos entre tantos papéis coloridos e laçarotes, que embrulhavam os nossos sonhos de meninos e as prendas que tanto ansiávamos por abrir. Lembro-me de não dormir nessa noite. E naquela noite em que apareceste vestido de Pai Natal? Consigo sentir o mesmo sentimento, cá dentro do peito, se fechar os olhos. Foi mágico!

Sabes do que mais gostava? De me sentar à lareira, comer a filhós que tínhamos feito na véspera e beber aquele leite mágico, tingido com o café de cafeteira feito no lume de chão. Era divinal e sabia-me a vida. Alimentava-me a alma e se a nossa família não era e é mesmo isso? Um alimento para a nossa alma.

Lembras-te quando um de nós ficava doente? Não havia um minuto de sossego, enquanto não nos assegurávamos de que tudo iria ficar bem. Era tão bom sentir que o nosso porto de abrigo estava de pedra e cal e nada abalaria isso. Nada mesmo. Éramos um só.

Como te contava no inicio, afinal, o porto seguro foi abalado por uma doença malvada que fez tremer toda a nossa vida! A união, a partilha, amizade e o amor fortificaram-se ainda mais. Não podíamos deixar que alguém dos “nossos” passasse por aquilo sozinho… E unimo-nos e chorámos e rimos! Vivemos todas as emoções com tanta intensidade. Sabes aqueles cafés noturnos que partilhávamos, quando nos recordávamos de tudo isto que te falei agora? Era quando soltavas um sorriso mais tranquilo. Estavas feliz!

E, por falar em felicidade, sabes o que a nossa família é? União, alegria, partilha, solidariedade, sorrisos, lágrimas, emoções vividas sem limites e, acima de tudo, amor, muito amor.

E que bem que me sinto de fazer parte desta família. Que bênção que é ser bafejada, ao longo da minha existência, com valores preciosos e alguns em vias de extinção, nesta sociedade tingida com uma tinta cinzenta, onde quem tenta marcar pela diferença e salpicar de rosa a vida é vista como utópica e sonhadora!

E sabes? Não me importo nada de sonhar.

E tu? Adormeceste num sono profundo, naquela manhã fria que me congelou por dentro e onde chorei muito, pois não era possível teres, simplesmente, ido embora.

E agora? Como seria? Como seria estarmos todos juntos e tu não? Como seriam os Natais a partir de agora? E as músicas da moda? Como seriam dançadas agora?

Hoje, estamos bem. Não te temos connosco, mas temos-te em nós, em todos nós, porque quem passa por nós deixa um bocadinho de si, não é?

Éramos tão felizes e não sabíamos.

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DORA NUNES, a Cinderella
Tem 37 anos e vive em Ponte do Sor — uma «cidade alentejana», diz, «de gente de alma gigante». Trabalha como administrativa num lar de idosos e canta numa banda. Duas terapias que a fazem sentir-se feliz. A escrita surgiu na adolescência. Era uma miúda tímida, com os medos e os anseios tão típicos da «idade do armário». Na escrita, libertava-os, soltava-se. Um desejo? Que cada palavra sua toque o mundo de quem a lê. Sente que a sua missão é ajudar os outros e acredita no lado bom de todos nós. Quem é ela? É a nossa Cinderella!