Será que aí, no céu, tens uma casa tão bonita como a nossa?

Texto vencedor | Desafio de escrita «Dia Internacional da Família»

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Fotografia & Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia + Design © Laura Almeida Azevedo

Hoje, pediram-me para escrever uma carta. Uma carta para ti, pai.

Mas não sei o que hei de escrever na morada. Se escrever apenas ‘céu’, será que o senhor que distribui as cartas não se esquece de ta entregar?

Não deve ser muito longe, daqui até ao céu. Se calhar, a carta até chega no próprio dia.

Se calhar, um dia, escrevo-te uma carta, pai. Como aquelas que escrevíamos na escola, a dizer que tínhamos o melhor pai do mundo.

Há tanto tempo que não te digo que és o melhor pai do mundo. Há tanto tempo que não me dizes que eu sou a menina dos teus olhos.

Lembras-te de quando me dizias que só irias viver para o Norte, quando eu me casasse? Nunca chegaste a ir. E eu acho que nunca me casei, porque nunca quis que fosses.

Será que aí, no céu, tens uma casa tão bonita como a nossa? Um dia, mostras-me. Se eu soubesse a morada, já aí tinha ido. Gostava de saber como é a tua casa aí, no céu.

Sabes porque sei que o céu não é longe? Porque te espero, todos os dias, nos meus sonhos. E lá estás tu sempre a sorrir.

Mas aí, no céu, também deve haver coisas para fazer, porque, quando acordo, tens de regressar.

Eu tenho ficado por cá. Mas tu tens ficado comigo.

Tudo o que sou, tem o teu cunho. Dos teus ensinamentos, faço as minhas batalhas. Dos teus valores, as minhas armas. Das tuas palavras, a minha bíblia. E do teu sorriso, a minha esperança.

Se calhar, um dia, escrevo-te uma carta, pai!

Daquelas que dizem que foste o melhor pai do mundo.

Daquelas que recordam as promessas que me sussurravas ao ouvido: «O pai estará sempre contigo!»

Se calhar, um dia, escrevo-te uma carta, pai!

Só para te dizer que tinhas razão!

Estarás sempre comigo.

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JÚLIA DOMINGUES, a JUX
Tem 38 anos. É solteira e igual a si mesma. Licenciou-se em Direito, sendo Jurista, mas a mais sábia aprendizagem foi aquela que a camaradagem desses tempos trouxe — e que dura, na maioria, até hoje. Tem um refúgio que gosta de pensar que é secreto: Braga, Gerês, a terra dos seus pais. Desde os 25 anos que diz: «Qualquer dia, piro-me de vez para o Norte. Quando for grande.» Mas nunca se pira, apesar de já ser grande. Adora tudo o que seja trabalhos manuais e o desenho é, sim, a sua verdadeira paixão. Tem fobia a andar de avião. E acredita no amor, embora não em coisas especiais. Afinal, não é preciso que ele venha de cavalo branco.