A viagem

Saberás tu ver-me?

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Fotografia © Ryan McGuire | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Ryan McGuire | Design © Laura Almeida Azevedo

Meia noite. E aqui estou eu, a um dia de partir.

«More than words» dos Extreme. Recuo no tempo. Ao tempo de adolescente, em que os sonhos nascem a uma velocidade estonteante, em que achamos que tudo ou quase tudo do que sonhamos, um dia, se tornará realidade. Ao tempo em que acreditamos que com o ímpeto do amor tudo se consegue. Como queria voltar aí! Como queria tanto voltar a acreditar!

E eis que surges tu. Tu, meu feiticeiro. Encantaste-me. Despertaste-me deste meu sono profundo. Ressuscitei. Renasci para o amor. Voltei a acreditar na possibilidade do impossível. E agora? Que irei encontrar? Será que aí vou chegar? E, se chegar, será que te vou achar? Será que me vais ver, ou apenas olhar?

São tão poucos os que me veem. Os que, num breve olhar, me escrutinam a alma. Num único som da minha voz, detetam aquela melancolia, nostalgia e languidez insubordinadas, que reinam em mim. Detetam o meu âmago, as minhas fragilidades, as minhas vulnerabilidades infinitas. Os que acreditam e me fazem acreditar no valor que tenho e no quanto faço a diferença no mundo que me rodeia. Os que veem o que, por vezes, nem eu própria consigo abarcar.

Sinto um vazio no estômago. O que estou eu prestes a fazer?

A partir. A partir sozinha, rumo ao desconhecido, apesar do destino ser já meu conhecido.

Olho para o bilhete de avião e ouço uma pequena voz a dizer-me para não embarcar. Para não abandonar o meu porto de abrigo, não me expor mais. Não quero repetir a ilusão concretizada na última vez. Apesar de ansiar repetir o irrepetível.

Mas aí vem, novamente, uma energia. Aquela que me diz assertivamente: «Vai! Embarca nessa aventura! Tens de saber! Tens de sentir! Tens de viver! Não fiques presa ao medo de arriscar, de falar, de amar.»

Que intensidade é esta, que me impele assim, tão impetuosamente? Que me leva a vencer a distância, os preconceitos, e os obstáculos de uma cultura tão distante, distinta, tão própria?

E que me desnorteia. Me causa arrepios de sobressalto. Sentir o abismo do desconhecido e a força do improviso.

É o ímpeto do amor! Esta sentença ecoa na minha cabeça, obstinadamente. É este o veredito? E eu que sei que é tão insano me apaixonar. Agora. Sempre. Idolatrar, possuir, perder-me…

Respiro fundo. Sinto um ligeiro tremor, torpor.

Duas da manhã. Os pensamentos em pirueta, com os olhos a quererem vedar. Esta inquietude.

Saberás tu ver-me?

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SÍLVIA SANTOS, a menina-mulher
Diz, por brincadeira, que é a Sílvia e a Aivlis — o seu nome escrito de trás para a frente. Porquê? Porque é de opostos. Voa e rasteja. Ri e chora. Reflete e descontrai. Uma menina-mulher, das que não sabem que sabem e que pensam que não sabem, mas sabem. Forte, mas resistente. Insegura, mas persistente. Com sede de viver, de sentir, de experimentar coisas novas: tanto pratica artes marciais, como salta em queda livre no meio das palavras. O que a sufoca? A monotonia. Anda constantemente em busca de novos desafios — e foi assim que veio aqui parar.