Eterna Mulher Saudade

1197
Fotografia © Dora Nunes | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Dora Nunes | Design © Laura Almeida Azevedo

Choravas baixinho, quando embalavas os teus filhos nas noites frias. Um choro miudinho, quase calado. Não podias deixar que percebessem que sentias desalento e vontade de desistir.

Não ias ao cabeleireiro, porque os teus netos vinham almoçar e foi a eles que te dedicaste de corpo e alma, ensinando-os os verdadeiros valores da partilha e do amor. Dedicação de mãe, ao dobro, que só tem olhos para o amor aos seus.

Ias ao supermercado e compravas o que toda a tua família mais gostava de almoçar, ao domingo, em tua casa. A casa, que todos procuravam para desabafar as vicissitudes da vida e as encostas mais íngremes desta escalada que é viver. Aquela casa branca de barras amarelas, com um vaso de feto à porta, e um rádio que tocava uma música portuguesa, da qual já não me lembro muito bem. Cantarolavas a músicas e davas alegria à rua toda. Acho até que as tuas malvas cantavam também.

Viver para os outros sem limites e com vontade que as reuniões de família durassem uma eternidade. Todos reunidos à volta da mesa era sinónimo de um sorriso rasgado no teu rosto. Rosto de mulher cansada, mas com uma garra e uma força de viver que transbordavam do balde da esfregona que tinhas à porta da cozinha. E bate-me uma saudade.

Sinto até o cheiro da roupa molhada no estendal, por cima do teu tanque de pedra. Era lá que te encostavas a falar com quem te visitava.

Eterna Mulher Saudade, que hoje vive assombrada por uma vida de passado, de lembranças boas, recordando uma casa cheia de sorrisos, gente feliz, papéis e laços de embrulho que desatavam os nossos sonhos de meninice.

Eterna Mulher Saudade, sempre foste a atriz principal, mas em papel secundário.

Eterna Mulher Saudade, trilhaste o teu caminho, marcando com pegadas de sal o caminho de quem o cruzou contigo. E o meu? Marcaste e marcas ainda, minha Eterna Mulher Saudade.

Eterna Mulher Saudade, que me enche de paz e tranquilidade, sempre que falamos neste mundo de correria e, só por cinco minutos, me dás o teu sorriso mais sincero.

Eterna. Assim serás para mim.

Eterna Mulher Saudade.

Comments

comments

PARTILHAR
Artigo anteriorHoje, ela é feliz e a culpa é toda tua
Próximo artigoOs homens também choram
DORA NUNES, a Cinderella
Tem 37 anos e vive em Ponte do Sor — uma «cidade alentejana», diz, «de gente de alma gigante». Trabalha como administrativa num lar de idosos e canta numa banda. Duas terapias que a fazem sentir-se feliz. A escrita surgiu na adolescência. Era uma miúda tímida, com os medos e os anseios tão típicos da «idade do armário». Na escrita, libertava-os, soltava-se. Um desejo? Que cada palavra sua toque o mundo de quem a lê. Sente que a sua missão é ajudar os outros e acredita no lado bom de todos nós. Quem é ela? É a nossa Cinderella!