Hoje, ela é feliz e a culpa é toda tua

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Fotografia © Ryan McGuire | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Ryan McGuire | Design © Laura Almeida Azevedo

Fizeste tantas promessas de amor eterno, prometeste tantas vezes que não a abandonarias nos momentos de tristeza, prometeste-lhe o mundo e abandonaste-a no exato momento em que a fragilidade era a palavra que melhor a definia. Estava frágil e já tinha derramado toda a possibilidade de lágrimas que o seu corpo era capaz de produzir. Abandonaste-a e obrigaste-a a chorar sem lágrimas e chorar sem lágrimas é a dor de quem perde tudo e não tem caminhos que lhe permitam seguir em frente.

Mas tu seguiste em frente, encontraste outras pessoas pelo teu caminho, fizeste outras tantas promessas de amor, delineaste, para ti, uma imensidão de objetivos e ainda vives como se não houvesse amanhã. Mas falta-te amor. O amor que ela te dava, apesar e acima de tudo. Ela não te abandonou nos momentos em que precisaste do ombro dela para chorar, ou da mão dela para te limpar as lágrimas. Ela não te abandonou.

Mas tu acreditas que tiveste sorte e esqueceste que sorte era puderes tê-la na tua vida. Porque, quando ela percebeu que não havia um caminho que lhe permitisse seguir em frente, atirou-se pela floresta. Se teve medo do escuro? Teve, claro. Se tropeçou nas pedras que não conseguia distinguir por falta de luz? Tropeçou, claro. Mas foi delineando um caminho de possibilidades. Alisou as terras, arrumou as pedras para o lado e caminhou. Em direção a onde? Ao infinito. Não tenhas dúvidas de que o destino dela é o infinito. O destino dela é o mundo que lhe prometeste.

Assim que foste embora, ela viu o que não a deixavas ver, descobriu o que não a deixavas descobrir. Porque ela era cega por ti. Era, porque no caminho compreendeu que não precisa de caras metades. Tem-se a ela e é suficiente.

Não, ela não morreu pela falta do teu amor. Ela viveu. Não, ela não é infeliz. Hoje, ela é feliz e a culpa é toda tua.

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RAQUEL FERREIRA, a engenheira
É de uma aldeia perdida no norte do país e ambiciona ser mestre em Engenharia Civil. No percurso, apaixonou-se pelas palavras e escreve. Sobre tudo. Sobre nada. Ainda não é tudo o que quer ser, mas luta todos os dias por isso.