Sei que te sentes bem porque me enervas

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Fotografia © Fernando Jorge | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Fernando Jorge | Design © Laura Almeida Azevedo

Sei que te sentes bem porque me enervas, com essa tua chiadeira de menina tonta à procura de protagonismo.

— Eu não te disse já que não me apetece ouvir-te?

E revirei-me na cama, pela enésima vez. A voz dela martelava-me na cabeça e eu não sabia qual o motivo por que, naquele dia, não estava com paciência para ela.

A véspera tinha-me corrido anormalmente bem. Tínhamos saído à hora do costume, tínhamos ido comprar o jornal e tínhamos ido depois ao café das Rochas, onde o mar vinha bater nas marés de setembro. Já me tinha sentido irritado quando ela pediu aquele chá de flores, que dantes me cheirava tão bem. Tão bem que já confundia o cheiro do chá com o perfume dela e o perfume dela com o perfume do chá, que era de rosas ou sei lá do quê. Mas aquele cheiro matinal a flores tinha invadido o espaço do meu café e este soubera-me mal, a fastio.

— Não podes chegar a chávena para lá? E se tirasses o bule de baixo do meu nariz?

Mas, depois de lho dizer, sentira-me mal. O sol da manhã ultrapassava a abertura entre as duas cortinas da janela e batia-lhe nos olhos. E reparei que eles tinham uma cor nova, não sei se castanha, se verde, que me deixou a olhar para ela. E pareceu-me que ela estava triste.

— Desculpa – disse-lhe -, mas hoje acho que não devíamos ter saído de casa.

— Esqueceste-te do que me disseste esta noite? – perguntou-me.

— Não!

Claro que não tinha esquecido. Depois de termos lido mais uma crónica do Lobo Antunes, a meias, como se aquela fosse a peça de teatro da nossa vida, tínhamo-nos enroscado na manta da lareira e acrescentado mais uma cavaca ao lume. Uma de cada vez. E tínhamo-nos enroscado um no outro, um de cada vez, à vez. E as minhas mãos tinham-lhe feito promessas que ainda me acordavam os ouvidos. E ela tinha-me dito:

— Sinto-me tão bem assim, ao pé de ti.

E eu tinha-lhe prometido que iria ser sempre assim. E os beijos que me dera ainda os sentia…

Só que agora, por estranho que me parecesse, nem disposição tinha para a ouvir.

Quando estacionei o carro, no lugar do costume, senti um arrepio. Fechei a porta e voltei atrás para verificar se a tinha fechado mesmo. E aquela estranha sensação de poder, que sentia ao cumprimentar o funcionário da portaria, havia-se perdido. E nem a cor da manhã era a mesma.

Ao por o pé no último degrau, tropecei no tapete da entrada e estatelei-me ao comprido. Levei à minha frente dois ou três alunos e ouvi o estalido dos óculos, partindo-se em dois. Olhei para as partes desfeitas e só disse:

— Merda!

Percebi, então, o meu mau feitio daquela manhã.

Na véspera, tinha ouvido na rádio que o acordo entre os dois principais partidos, o do governo e o da oposição, me tinha tirado a coisa que mais me enchera de orgulho na minha carreira: professor titular.

E ali estava eu, prostrado e vencido. Ainda ouvia o riso dos alunos, quando me levantei. E, quando encostei as duas metades dos óculos, senti-me como um futebolista, velho e cansado, na sua condição de suplente.

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FERNANDO JORGE, o biólogo
Cozinheiro, aos 12 anos. Artista de teatro, fundador do grupo Madrugadores do Adro, em Ribeira de Frades, aos 16 anos. Praticante de atletismo na AAC. Professor na Escola Industrial e Comercial da Marinha Grande, aos 21 anos. Começou a escrever o livro Poemas de amor e de raiva, aos 22anos, e ainda continua. E continua.