A minha paixão

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Fotografia © Carina Maurício | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Carina Maurício | Design © Laura Almeida Azevedo

Adoro fotografar. É daquelas paixões desde criança.

Recordo-me da minha primeira máquina analógica, que fotografava em três formatos. Recordo-me da ansiedade, enquanto esperava pelas fotografias reveladas, porque nem sempre havia dinheiro. Recordo-me de a minha mãe ralhar, porque num rolo inteiro não havia uma fotografia de jeito — leia-se para colocar numa moldura lá de casa. Recordo-me das fotos tiradas com uma caixa de biscoitos de manteiga, em metal. Do cheiro dos químicos e da luz vermelha da sala obscura de revelação. E da ansiedade, enquanto aguardava que a imagem aparecesse quase por magia.

Para mim, fotografar não tem a ver com técnica, nem com edição e tão-pouco com equipamento, que é apenas o meio para lá chegar. Estas coisas qualquer um aprende com estudo e qualquer um pode alcançá-las com dinheiro.

Para mim, a fotografia é um aroma, é uma sensação, é uma gargalhada, é um sabor, é o som de água a cair, dos pés a caminhar e a dançar. São os raios de sol que atravessam as folhas e que nos aquecem o rosto. São os cheiros, os paladares, as memórias e as tradições. É a cultura de cada lugar e de cada povo. É aquela música, aquela recordação, aquele sorriso, aquele sentimento. É o querer congelar, numa imagem, mil coisas em simultâneo e desejar que permaneçam ali para sempre. Porque a fotografia pode ser realista, naturalista, impressionista ou expressionista, até mesmo surrealista, mas será sempre mais do que aquilo que se vê!

Fotografar é uma forma de expressão, um instinto e um vício. O tempo corre e as ideias disparam. É explorar o meu sentido criativo! E, para isso, eu preciso de inspiração. Sem inspiração, capto imagens sem sentimento. E colocar em imagem aquilo que vejo, que sinto e que quero transmitir, significa muito. Para muitos, pode ser apenas mais uma fotografia num mundo saturado de imagens. Para mim, é sempre mais do que isso. Cada fotografia contém uma mensagem, uma ideia, uma emoção… Por isso, evito legendar as imagens. Acho que fazê-lo condiciona à partida o observador. E cada um deve fazer a sua viagem… Fotografar é viajar sem sair do lugar!

Não estudei fotografia — uma decisão consciente e propositada. Estudei aquilo de que precisava para ter a profissão que amo. Para fotografar, só necessitava de continuar apaixonada.

Um dia, um amigo escreveu-me: «As tuas fotografias são um poema. E espelham a tua sensibilidade.» Para mim, este momento foi o reconhecimento da minha paixão.

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CARINA MAURÍCIO, a fotógrafa
É budista e conservadora-restauradora. É de riso e choro fáceis. Tem tanto de sensível, quanto de corajosa e lutadora. Adora fotografar, jogar ténis e viajar. Viciada em comida, é fã de comida italiana. Gosta de dormir, de café, de chocolate. Dançar? Pode ser a noite toda. Mas também gosta de ficar na ronha, em casa, entre filmes e pipocas. Adora o som da chuva a cair no inverno e o som do mar em dias de verão. Campos floridos enchem-lhe o olhar, assim como as cores das folhas do outono. Apaixona-se facilmente e é uma apaixonada pela vida. Uma geminiana pura.