Grata por te amar e por estar viva

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Arte © Laura Almeida Azevedo
Ilustração © Laura Almeida Azevedo

Estás aqui, ao meu lado. A tua mão segura a minha, determinada, como se pudesses impedir-me de fugir. Sussurras palavras de alento, como se eu te pudesse ouvir. Dizes que estarás sempre aqui, para mim. Pedes-me para não desistir. Dizes que me amas, que precisas de mim.

Sinto-me em paz, leve. Nunca me senti tão bem. Há um calor agradável que me envolve. Queria ficar aqui, mas não posso.

A tua outra mão acarinha-me o rosto, suavemente. Estranhamente, a tua voz soa cada vez mais distante. Gosto tanto da tua voz. Sorris para mim, confortas-me. Os teus olhos demonstram preocupação. Não te preocupes, meu amor, estou a voltar. Abraças-me com força. Achas mesmo que vou partir?

Oiço um tilintar metálico. Sobressalto-me. Há qualquer coisa que apita a espaços. Tento abrir os olhos, mas a luz fere-me a vista. Tento levar a mão à cara, mas não consigo. Algo prende os meus movimentos. Olho em volta, procuro por ti, mas não te encontro. O cheiro é-me familiar. O espaço também.

Tenho frio. A minha respiração fica pesada e o coração apressa-se. Falta-me o ar à medida que recupero os sentidos, que tomo de volta a minha consciência. Inspiro, expiro. As lágrimas vêm-me aos olhos. Um rosto compassivo e sorridente olha para mim, mas não é o teu rosto. «Bem-vinda de volta», diz-me o médico.

Há dois dias que teimava em não acordar. «Foi por pouco», a voz sai-me rouca e quase inaudível. O médico assenta com a cabeça. Sabíamos que o risco era grande. «O pior já passou», aquieta-me. Apercebo-me de que estão mais pessoas em meu redor. Não sei se já lá estavam ou se chegaram depois. Uma enfermeira repreende-me: «Pensava que se via livre de mim?». Nada como o humor para disfarçar a emoção que toma conta de nós. Esta pequena vitória, mais uma, também é deles.

Quanto a ti, meu amor, não estás aqui, nem nunca estiveste. Nem sequer imaginas o que foi feito de mim. Mas ajudaste-me, mesmo sem saberes, mesmo sem teres feito nada para isso.

Consta, por aí, que o amor é a maior força que o mundo conhece, aquela capaz dos maiores feitos. Percebo porquê. Este amor, que vive em mim, foi a minha fonte de vida. Foi dele que extraí o alento para lutar. Foi nele que encontrei o ânimo de que precisava para enfrentar tudo. Aninhei-me no teu colo sempre que tive medo. Mergulhei nos teus olhos sempre que precisei de refúgio. Revi, vezes sem conta, o teu sorriso sempre que me faltou a esperança. E, mesmo que isto se passasse apenas algures na minha mente, foi suficiente.

Peguei neste amor enjeitado, nesta energia tamanha e redirecionei-o para o duelo com a morte. Para alguma coisa este sentimento haveria de servir. Talvez tenha sido por isso que aconteceste na minha vida. Não para me amares, mas, sim, para me salvares.

Informam-me que, agora, só posso melhorar. Sei que têm razão, mas as dores lembram-me que o caminho ainda será longo e penoso. Até lá, ficas aqui comigo. A não ser que a vida me surpreenda, a luta para te esquecer ficará adiada até então. Por agora, sinto-me apenas grata por te amar… e por estar viva.

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ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.