A não decisão

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Fotografia © Sílvia Santos | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Sílvia Santos | Design © Laura Almeida Azevedo

Ele nunca irá esquecer aqueles dias de verão, nem os que se precederam. E muito menos os que se seguiram. O sol, o mar, a paixão, o desejo, a cumplicidade, a conquista. Tudo, na sua vicissitude, parecendo tão perfeito. Naquela fatídica tarde, o destino estava traçado… As suas vidas fortuitamente se cruzaram.

O pôr do sol. O mar revolto. Revolto e tudo tão belo. E eis que surge ela, estilo furacão, no seu fato de corrida preto. As faces rosadas com pingos de suor por elas a deslizar. Um emaranhado de cabelos meio presos, meio soltos ao vento. A respiração ofegante, os olhos semicerrados e a testa franzida. Tudo nela parecia tão ridículo, mas algo nele despertou. Os olhos da alma viram o que os seus olhos não detetaram… A beleza daquela mulher, desprovida de maquilhagem, desprovida de capas. A beleza por detrás do suposto ridículo.

Ela olha para ele, mas não o vê. Ele persiste. O seu jeito sensual, carinhoso, protetor. O seu sorriso, o seu toque, o seu jeito natural de ser, de estar, de falar. Os seus valores de vida. Ela não lhe resiste mais, e o seu coração é arrebatado com toda a força. O frenesim da sua presença. Os horizontes abertos do seu olhar. Eram dois sentindo-se um só. Os dois se fundindo num. Um!

«E porquê?!», eis a sua eterna pergunta.

Porquê? Porque há coisas que simplesmente não se racionalizam. Sentem-se, vivem-se, fluem. Mas tudo é tão complexo! Porque não basta só amar? O tanto que os junta é o tanto que os separa… Ele, racional, calmo e ponderado, uma vida estável com tudo programado. Ela,menina-mulher independente, enérgica, inconstante e imprevisível, revolta como aquele mar, mas com uma capacidade enorme de amar.

Seguirá ele o seu trilho, à procura de novos capítulos para a sua mesma história? Morna, morta, mesma. O típico conforto do vazio desconfortável, prolongado pela avalanche dos seus «e se»?

Ou conseguirá este guerreiro implacável, com um coração de ouro, vencer os seus medos, os seus ses? E libertar-se das amarras que o prendem, virar uma página e escrever uma nova história? Viver uma nova aventura intensa, empolgante, eletrizante?

Possuirá ele a ousadia para ultrapassar qualquer obstáculo com aquela coragem, análise e sabedoria que o caracteriza?

E ela? Será ela presenteada com essa dádiva de amor?

«A sorte protege os audazes», diz ele.

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SÍLVIA SANTOS, a menina-mulher
Diz, por brincadeira, que é a Sílvia e a Aivlis — o seu nome escrito de trás para a frente. Porquê? Porque é de opostos. Voa e rasteja. Ri e chora. Reflete e descontrai. Uma menina-mulher, das que não sabem que sabem e que pensam que não sabem, mas sabem. Forte, mas resistente. Insegura, mas persistente. Com sede de viver, de sentir, de experimentar coisas novas: tanto pratica artes marciais, como salta em queda livre no meio das palavras. O que a sufoca? A monotonia. Anda constantemente em busca de novos desafios — e foi assim que veio aqui parar.