Os amores da net

Acabas por ser vítima do teu próprio engodo

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Fotografia © Júlia Domingues | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Júlia Domingues | Design © Laura Almeida Azevedo

Nos amores da net, começamos por ser meros estranhos.

Primeiro, somos atraídos pelas fotos com o melhor ângulo, uns óculos escuros que emprestam um pouco de swag e uma descrição que vai ao encontro do que as relações humanas deveriam ser: perfeitas.

Mas somos estranhos.

E isso traz consigo todos os códigos de uma vida, de experiências, de vivências, de (in)tolerâncias, de exigências. É assim a condição social do ser humano.

Depois, somos seduzidos pela conversa. Nas 5 primeiras frases conseguimos, imediatamente, separar o trigo do joio.

Se a conversa durar mais de 10 frases, é capaz de se tornar numa coisa séria.

Se forneceres, voluntariamente, o teu número de telefone – UAU! -, és capaz de estar na presença do homem da tua vida.

Queres tanto que dê certo, que resulte, que aquela pessoa tenha aparecido na tua vida porque te estava destinada, que afinal valeu a pena todos estes anos de espera. Acabas por ser vítima do teu próprio engodo.

É tão fácil criar a ilusão de que estás a viver as melhores experiências dos últimos tempos, que alimentar isso acaba por se tornar no teu desafio mais cruel.

As pessoas precisam urgentemente de amar. Mas não estão dispostas a cumprir todos os protocolos que vêm em anexo, com letras minúsculas e que dão muito trabalho a ler. É tão mais fácil assinar de cruz.

Claro que há exceções. E a exceção confirma a regra.

Evidentemente que existem coisas giras que podem acontecer por mero acaso. E a tecnologia não pode trazer só coisas más. Aproximou as pessoas, enalteceu a comunicação e encurtou as distâncias. Mas, bolas, não é preciso abusar desses privilégios.

O encaixe, entre duas pessoas, resulta do toque.

E do cheiro.
Das respirações.
De dois corpos suados.
Do reconhecimento pelo tato.
Do timbre.
Dos gemidos tidos na intimidade.
Da própria intimidade.

E — lamento desiludir-vos — não há tecnologia, por mais sofisticada que seja, que nos devolva a certeza de, com um simples toque, não estarmos na presença de um… mero estranho!

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JÚLIA DOMINGUES, a JUX
Tem 38 anos. É solteira e igual a si mesma. Licenciou-se em Direito, sendo Jurista, mas a mais sábia aprendizagem foi aquela que a camaradagem desses tempos trouxe — e que dura, na maioria, até hoje. Tem um refúgio que gosta de pensar que é secreto: Braga, Gerês, a terra dos seus pais. Desde os 25 anos que diz: «Qualquer dia, piro-me de vez para o Norte. Quando for grande.» Mas nunca se pira, apesar de já ser grande. Adora tudo o que seja trabalhos manuais e o desenho é, sim, a sua verdadeira paixão. Tem fobia a andar de avião. E acredita no amor, embora não em coisas especiais. Afinal, não é preciso que ele venha de cavalo branco.