Quero-te, mas não na minha cama

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Fotografia © Júlia Domingues | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Júlia Domingues | Design © Laura Almeida Azevedo

És uma perdição! Daquelas que alimentam o ego. Que funcionam sem grandes preocupações. Tu queres. Eu quero. Somos adultos. Vamos fazer acontecer.

Em tempos de relações instantâneas, quase que nos é vedado sentir! É tudo demasiado mecanizado e parece que trazem acoplados um manual de instruções: «Usar em caso de Emergência.»

Relações vazias de conteúdo, ocas de sentimentos e parcas em palavras. Dá menos trabalho assim. Sorris. Seduzes. Despes-te. Sacias-te. Vestes-te. Foi bom? Até à próxima.

As pessoas perderam a inocência. Deixaram voar as borboletas que habitavam o seu estômago. As pernas deixaram de tremer quando aquela pessoa se aproxima. Já não fechamos os olhos quando nos dão um beijo.

Claro que te quero! És uma perdição. Das boas. Daquelas que estão à distância de uma mensagem escrita ou de um convite pelo Whatsup. Queres? Quero. E por umas horas seremos quem quisermos.

Despimo-nos de preconceitos. Não tenho de ser perfeita e tu não precisas de ser muito inteligente. Umas horas de prazer intenso prolongado por um vazio de alma. Claro que é bom. Alimenta o ego. Satisfaz os nossos mais profundos instintos primários. A carne.

O problema, aqui, é precisamente o que nos distingue dos demais animais que habitam o planeta. Dizem os entendidos que nós, os humanos, somos racionais. E a mim parece-me que é essa racionalidade que me atraiçoa.

Claro que te quero. És uma perdição. Quero-te… Mas não na minha cama. Quero-te num sítio qualquer. Por aí. Mas não na minha cama.

Na minha cama, quero uma história. Não um episódio. Na minha cama, deita-se quem eu reconheço o cheiro, o toque, quem me devolve as borboletas do meu estômago, quem me rouba um beijo que me fará fechar os olhos.

Na minha cama, quero recordar dias, não horas. Na minha cama, quero viver amores, chorar desamores.

Na minha cama, quero perder a inocência por saber que não vieste com manual de instruções e por isso mesmo saberei que ambos erraremos e que aprenderemos com isso.

Na minha cama, estará alguém que acredito que vai durar para sempre, mesmo que dure apenas até ao próximo mês.

Na minha cama, ficará alguém que não queira ir embora na manhã seguinte.

A minha cama é muito mais do que um estrado e um colchão. É a porta de entrada para uma vida, para aquilo a que chamam cumplicidade, intimidade e partilha.

Até lá? Claro que te quero. És uma perdição. Quero-te por aí, num sítio qualquer. Qualquer sítio é perfeito para umas horas descomprometidas de alguém que se quer mutuamente. Ali. Sem muitas complicações.

Mas, depois, volto sozinha para a minha cama. Onde retorno ao mundo dos sonhos e onde guardo o teu lugar… vazio. Estará à espera de ser ocupado e posso garantir-te que ninguém estará lá quando chegares.

Porque, até lá, claro que te quero… mas não na minha cama!

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JÚLIA DOMINGUES, a JUX
Tem 38 anos. É solteira e igual a si mesma. Licenciou-se em Direito, sendo Jurista, mas a mais sábia aprendizagem foi aquela que a camaradagem desses tempos trouxe — e que dura, na maioria, até hoje. Tem um refúgio que gosta de pensar que é secreto: Braga, Gerês, a terra dos seus pais. Desde os 25 anos que diz: «Qualquer dia, piro-me de vez para o Norte. Quando for grande.» Mas nunca se pira, apesar de já ser grande. Adora tudo o que seja trabalhos manuais e o desenho é, sim, a sua verdadeira paixão. Tem fobia a andar de avião. E acredita no amor, embora não em coisas especiais. Afinal, não é preciso que ele venha de cavalo branco.