
Se me procurares
Se me encontrares
Tenho coágulos de pedras a petrificarem artérias
Que correm pela lonjura das margens,
Onde os canaviais entrelaçam a fúria e rasgos de uivos teus, abrindo abismos
Na minha epiderme arenosa de dunas moles, descobrindo uma ferida tua de lodo,
Num charco morno;
Se me procurares
Se me encontrares
Sou a cascata de névoa que envolve os passos hesitantes do teu medo,
A verdade dos teus olhos cegos, e o que não seguras e tateias,
Não soubeste quando um dia me tiveste;
Se me procurares
Se me encontrares
Nunca me hás de reconhecer
Sou a chave do teu cadeado a pulsar a fórmula da tua liberdade,
Dei te o meu vale de erva tenra pela encosta íngreme dos sentidos leitosos da tua vida sem bússola,
Quando julgaste saber o que era amar,
E cravo o teu nome na minha raiz de castanheiro rugoso e aguardo paciente que a tua alma leviana
Aqui, estacione;
Se me procurares
Se me encontrares
Nunca me hás de reconhecer
És a seiva que nas minhas nervuras incansável percorre o crepúsculo
do teu dia
Na minha noite.




