Se me encontrares

Fotografia © Isabel Luiza de Leston| Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Isabel Luiza de Leston | Design © Laura Almeida Azevedo

Se me procurares
Se me encontrares

Tenho coágulos de pedras a petrificarem artérias
Que correm pela lonjura das margens,
Onde os canaviais entrelaçam a fúria e rasgos de uivos teus, abrindo abismos
Na minha epiderme arenosa de dunas moles, descobrindo uma ferida tua de lodo,
Num charco morno;

Se me procurares
Se me encontrares

Sou a cascata de névoa que envolve os passos hesitantes do teu medo,
A verdade dos teus olhos cegos, e o que não seguras e tateias,
Não soubeste quando um dia me tiveste;

Se me procurares
Se me encontrares

Nunca me hás de reconhecer
Sou a chave do teu cadeado a pulsar a fórmula da tua liberdade,
Dei te o meu vale de erva tenra pela encosta íngreme dos sentidos leitosos da tua vida sem bússola,
Quando julgaste saber o que era amar,
E cravo o teu nome na minha raiz de castanheiro rugoso e aguardo paciente que a tua alma leviana
Aqui, estacione;

Se me procurares
Se me encontrares

Nunca me hás de reconhecer
És a seiva que nas minhas nervuras incansável percorre o crepúsculo
do teu dia
Na minha noite.

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ISABEL LUIZA DE LESTON, a observadora silenciosa
É mais conhecida por Boliche Leston. Tem um romance publicado: «Atalhos e Espantalhos». E está prestes a publicar outro. Adora escrever, observar as árvores e as pessoas, criar, decorar, imaginar. Mas, entre todas estas coisas fantásticas da vida, são os filhos a sua maior inspiração.