Esta saudade

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Fotografia © Juan Galafa | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Juan Galafa | Design © Laura Almeida Azevedo

Gostava de poder expressar a saudade. De expressá-la por escrito, porque as palavras ditas fogem, mas a saudade fica. Gostava de poder escrever a saudade. Descrever o que faz sentir, o que faz pensar, o que faz querer, o que deixa a doer.

Lembro-me de ter saudades da escola, de amigos, de primos distantes, de sítios felizes. Lembro-me de ter saudades da praia e daquele gelado que já não se vende. Lembro-me de tantas saudades que senti e que só deixaram… saudade. Mas esta que sinto agora, esta que me habita os dias: esta mói, perfura a alma, entranha-se na pele.

Gostava de poder deitar esta saudade para o papel. Para a ler e reler. Para a desmembrar em partes pequenas, quase invisíveis. Gostava de a escrever só para a tentar perceber. Esta saudade não pode deixar só saudade, como o gelado que já não se vende. Não pode passar por mim só de raspão. Não a posso sentir assim, hoje, e amanhã já não lembrar do quanto mói e perfura a alma e se entranha na pele.

Quando conseguir escrever esta saudade, vou conseguir perceber que arranca lágrimas e cabelos. Que faz doer e cair no chão. Que torna insuportável o viver sem. Que leva ao desespero do nunca mais. Mas que faz lembrar o que já tinha esquecido.

Faz saber o que não sabia. Faz reviver o que já passou. Faz sentir o tanto, tanto, tanto – e nunca pouco – que te amo, mãe.

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JOANA TAVARES, a apaixonada
Joana, ribatejana a viver (n)a capital há uma década. Divide-se todos os dias em vários papéis que adora – mãe, mulher, filha, neta, irmã, amiga e colega – e, em cada um, tenta dar o melhor de si. A viver os 30 intensamente, continua a apaixonar-se todos os dias. Quando lhe sobram minutos, passa as paixões para o papel. Para nunca se esquecer do bom que a vida lhe dá.