Temos de tornar o amor mais simples

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Fotografia © Raquel Ferreira | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Raquel Ferreira | Design © Laura Almeida Azevedo

Quando vim ao mundo, vim em princesa. Usava vestidos de roda que me tapavam os pés, usava tranças com laços cor de rosa, pintava os lábios com um batom de brilhantes e sorria sem motivo aparente. Brincava à apanhada, às escondidas e, de vez em quando, ia com os joelhos a sangrar para casa. A minha mãe, a rainha, desinfetava a ferida, soprava para não arder e dizia que ia passar. Apaixonava-me pelos meninos da escola e escrevia-lhes cartas no melhor papel que tivesse e com a caneta de cor mais bonita. Perguntava-lhes se queriam namorar comigo e fazia os quadradinhos para o sim, para o não e para o não sei. E não, não sei o que pretendia com essa última opção, mas, por sorte, nunca a assinalaram. Porque, na infância, era fácil e não havia lugar a indecisões. Lembro-me de que, enquanto era princesa, namorar era sinónimo de correr de mãos dadas, brincar e sorrir. Mas não contava nada ao pai, o rei, porque ele dizia que era pequenina para essas coisas e, mais importante do que isso, tinha de escolher bem o príncipe.

E, depois, cresci. Os vestidos compridos tornaram-se curtos, a apanhada e as escondidas transformaram-se em idas à discoteca, o amor de mãos dadas deu lugar aos beijinhos na boca e descobri que os príncipes não existem. Cresci e fui esquecendo que, às vezes, temos de regressar à ingenuidade da infância. Às vezes, temos de perceber como é que se sorri sem razão. Às vezes, temos de voltar a usar vestidos de roda e laços nas tranças. Às vezes, temos de tornar o amor mais fácil e mais simples, como os quadrados do sim, do não e do não sei. Às vezes, temos de aprender a cair e a esfolar só os joelhos e não o coração.

Sim, às vezes, todos temos de voltar a ser príncipes e princesas e, às vezes, precisamos de fazer isso milhões de vezes.

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RAQUEL FERREIRA, a engenheira
É de uma aldeia perdida no norte do país e ambiciona ser mestre em Engenharia Civil. No percurso, apaixonou-se pelas palavras e escreve. Sobre tudo. Sobre nada. Ainda não é tudo o que quer ser, mas luta todos os dias por isso.