Amo-te tanto

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Fotografia © Nuno Correia | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Nuno Correia | Design © Laura Almeida Azevedo

No teu olhar, vejo a sinceridade. Na boca, o contorno das palavras sábias e com princípios. Na anca, o jogo da verdade e da autoestima. Tens a silhueta das pernas de uma mulher que valoriza a sua força e que respeita o caminhar do outro. No rosto, o brio e a integridade e, no peito, o escudo contra a maldade. Tens a beleza física de quem se aceita e se valoriza. É assim que tu és.

O que eu nunca imaginei foi que te ia encontrar aqui! Eu com um gosto musical tão vasto, tão diferente, nunca tinha assistido a um espetáculo destes. Tinha tido o cuidado de escolher o concerto. O repertório era brutal. A música entrava no coração. Apaixonava. Era diferente. Contava-me tantas histórias. Passavam-me tantas imagens pelo pensamento.

Quando te vi ali, no meio de tanta gente, de bloco na mão, a traçar tantas palavras, nem sei bem porquê, mas o meu corpo estremeceu. Tentei aproximar-me, mas o ódio apoderava-se de mim. Como foste capaz? O que é que estás aqui a fazer?

Olhei-te de alto a baixo. O teu pé batia ao compasso da música e dei por mim a rir, porque o meu também bailava ao mesmo ritmo, como numa dança, ali os dois juntos. A música era clássica, mas nós conseguíamos fazer daquilo o mais puro rock, ou só uma balada para dançarmos os dois.

Apetecia-me fugir, bater-te. Porra, o que é que eu faço? O meu corpo fervia. Dei comigo a aproximar-me devagar. Lentamente, para que não desses por mim.

A cada segundo que passa, odeio-te mais.

Consigo ler as primeiras palavras do que escrevias: «Porque é que não estás aqui comigo? Amo-te tanto…»

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