Porto seguro

Um frio percorre-me o corpo. Há tanto que me atormenta — e há demasiado tempo.

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Fotografia © Carlos Diniz | Design © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Carlos Diniz | Design © Laura Almeida Azevedo

De alma inquieta, descalço-me e deslizo os pés pela areia fresca. É noite, mas o luar inunda a paisagem, refletindo-se na suave cascata de ondas que desaguam na praia e que banham as pequenas e redondas rochas, pintalgadas de algas, que polvilham o areal em redor. Mar chão.

Sentado na areia, contemplo a paisagem, perscrutando a noite. Em busca de paz. A abóbada celeste oferece-me uma visão magnifica, um teto de azul-escuro, estrelado. No entanto, um sentimento de solidão apodera-se de mim. Que faço aqui, só?

Abraço os joelhos. Sinto a água fria a acariciar-me a ponta dos dedos dos pés. Um arrepio percorre-me a espinha. Inalo o fresco odor a maresia. Delicioso. O tempo vagueia. Um frio percorre-me o corpo. Há tanto que me atormenta — e há demasiado tempo. Que busco aqui? Um ponto de fuga? Um local seguro?

De repente, sinto um restolhar. Surpreendido, giro a cabeça. Ao meu lado direito, sentada, está uma criança. Tem talvez os seus oito anos, um cabelo aparentemente claro. Como terá chegado aqui? Que fará aqui? Curiosamente, as suas feições são-me familiares.

— Estás triste? — pergunta-me.

Não respondo por palavras. A minha resposta surge em forma de água, salgada, que escorre sobre a minha face.

A criança envolve as suas mãos na minha e encosta a cabeça ao meu braço. E sussurra, com uma voz suave:

— Vai correr tudo bem.

Sinto-me tranquilo com a sua presença. Envolvo-a com os meus braços e ficamos assim por muito tempo, que me parece uma eternidade. Fecho os olhos. E a tranquilidade, há muito tempo perdida, regressa a mim.

De repente, uma brisa mais forte levanta-se rodopiando à nossa volta. Um calor invade-me o peito, aquecendo-me a alma. Olho em redor. A criança desapareceu. Oiço uma voz vinda do meu peito:

— Vai correr tudo bem.

E compreendo: a criança está no meu coração. A criança sou eu. Estou no meu porto seguro. Sinto-me em Paz.

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CARLOS DINIZ, o idealista
É informático, mas as letras também o assistem. Adora ler. Lá porque esta é a sua primeira experiência na escrita, não se deixa intimidar. Os desafios são para isso mesmo. Amante do que é natural, aprecia as coisas boas da vida. Acredita que «os sonhos comandam a vida» — e, aqui entre nós, comandam mesmo.